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ESTAÇÃO CULTURAL: O LEGADO DE MARIO QUINTANA É DESTAQUE EM LIVE DA TRENSURB

29.06.2020

Bate-papo com estudiosos André Mitidieri, Sérgio de Castro Pinto e Sérgius Gonzaga foi transmitido e segue disponível por meio do Facebook, na página do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos, a biblioteca da Trensurb.

A Trensurb realizou um bate-papo com transmissão ao vivo, na última sexta-feira (26), a respeito do legado de Mario Quintana. Foi a segunda atividade da retomada online do projeto Estação Cultural, do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos – a biblioteca da empresa metroviária. Os convidados da live foram pesquisadores de literatura, estudiosos da obra do poeta: André Mitidieri, Sérgio de Castro Pinto e Sérgius Gonzaga. Também participaram do evento, pela Trensurb: o gerente de Comunicação Integrada, Jânio Ayres; o assessor cultural e escritor, Élvio Vargas; como mediador, o relações-públicas Leonardo Marion. A transmissão foi realizada por meio do Facebook e o conteúdo segue disponível na página do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos na rede social.
 
Na abertura da live, o gerente Jânio Ayres agradeceu a presença dos convidados e também à equipe da Trensurb que organizou a atividade. Sobre a retomada das ações do Estação Cultural, afirmou que ela busca “falar de literatura, incentivar as pessoas a ler, porque os livros são as trocas possíveis nesse momento de pandemia”.
 
Professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Sérgius Gonzaga lembra que, em sua juventude de militância política, chegou a considerar Quintana um poeta menor em relação a outros mais engajados. E só décadas depois, ao reler suas obras, teve a percepção de sua grandeza, o que classifica como fundamental para ele como professor e leitor. Lembrou, também, que na velhice do poeta, em Porto Alegre, ele chegou a se tornar uma espécie de “Papai Noel das Letras”, satisfazendo-se em dar entrevistas e ter sua imagem usada de diversas formas, como representação de uma espécie de inocência feliz. Sua obra, porém, ia muito além disso.
 
Poeta, jornalista e professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba, Sérgio de Castro Pinto afirma que Mario Quintana costumava ser relegado a um segundo plano por poetas vanguardistas contemporâneos, que trabalhavam muito com metalinguagem e sem “a marca suja da vida”. Esse também era o tratamento dado por muitos acadêmicos, que demoraram a lhe dar a devida importância, talvez por preconceito quanto à poesia lírica. Pinto, porém, coloca Quintana entre os poetas líricos maiores, como Manuel Bandeira. “Acho, inclusive, que há um parentesco entre Quintana e Bandeira na medida em que os dois exploram as coisas simples da vida, os sobejos de Deus, e sabem ambos extrair do velho o novo”. Para o estudioso, Quintana, que revitalizou o soneto, “guardadas as devidas proporções, foi o sonetista que o modernismo não teve”. Com versos brincalhões, “elegeu o humor como pedra de toque de sua poesia”, segundo Pinto, incorporando-o a sua obra “de uma forma bem orgânica, bem visceral”.
 
Ao falar sobre a obra de Quintana, André Mitidieri, professor titular da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA), parafraseou a pesquisadora Regina Zilberman: “a poesia da Mario é confessional e até autobiográfica”. Ele afirmou, ainda, que se trata de uma poesia memorialística e geofísica, pois “conseguimos identificar esses lugares por onde Mario passou e que foram midiografados” – ou seja, mapeados pela mídia, especialmente no que se refere a Porto Alegre, ainda que, no caso de Alegrete, onde nasceu o poeta, haja territórios a serem decifrados. Mitidieri cita “aquela territorialidade das tias velhas, das recordações, das cadeiras nas calçadas, da igrejinha, do burrico na praça”, elementos da vida de Quintana em Alegrete que aparecem nos poemas. Para além do espaço, o professor fala ainda do testemunho do tempo do poeta – inclusive abordando questões sociais, algo do qual foi acusado de não fazer –, quando, por exemplo, na década de 1970, ele escreve que “a esperança é um urubu pintado de verde”.
 
Sérgius Gonzaga, por sua vez, acredita que, ainda que estejam presentes na obras de Quintana, as cidades aparecem sob forma de “inúmeras mediações, de uma escada de mediações”. Para ele, a cidade pequenina e antiga  não é necessariamente Alegrete, “é muito mais uma alegoria de uma cidade do passado, de uma cidade morta”. Gonzaga afirma que se trata, aparentemente, de “um mundo simbólico, de algo que se perdeu, algo que não faz mais parte direta do presente, no qual, nessa cidade, estão os seus amigos mortos, as amadas. É uma cidade como um baú de espantos, que se abre como uma cidade imaginária, ainda que tenha um lastro real”. O mesmo, para o professor, se aplica à Porto Alegre que aparece na poesia de Quintana. A fim de ilustrar, ele cita o poema O Mapa, que tornou-se referência, em Porto Alegre, da obra do poeta – e, ao mesmo tempo, uma referência sobre Porto Alegre. No entanto, todas as referência, segundo Gonzaga, serviriam para praticamente qualquer cidade. “Me parece que ele desmaterializa, num certo sentido, a poesia, ele desconcretiza a poesia em busca de algo maior, talvez mais universal, mais profundo. Nesse sentido, me parece que a poesia dele é singular”, afirma. Gonzaga citou ainda, como um aspecto “encantador” da poesia de Quintana, a simplicidade da linguagem: “Não chega a ser coloquial, mas tem a simplicidade, a naturalidade e a plena acessibilidade de uma linguagem coloquial e, no entanto, eu considero a poesia dele enigmática, quase uma charada, ela exige decifração”.
 
Retomando o tema das questões sociais na poesia de Quintana, Sérgio de Castro Pinto diz que o social em sua obra não adquire contornos mais bem definidos porque não está designado pelo poema, é o próprio poema. Citando trecho de livro seu sobre o poeta, Pinto afirma: “Para ele, o social extrapola os estreitos limites dos credos políticos e religiosos para abranger, em toda sua plenitude, os atos mais comezinhos e prosaicos da existência humana”.
 
Sobre as características da poesia de Quintana que o tornaram popular, Pinto destaca a pluralidade de sua obra: “abriga na sua poesia várias vozes, várias manifestações poéticas, e a simplicidade de sua poesia, às vezes, uma aparente simplicidade, pois exige uma certa concentração do leitor”. O pesquisador afirma, também, que Quintana deveria ser mais lido e que, ainda que a crítica esteja reconhecendo seu valor, sua obra deve ser conhecida como um todo, pois só então sua grandeza poderá ser mensurada no âmbito da poesia brasileira. Para Mitidieri, “a aparente simplicidade de Quintana é um dos fatores que faz com que ele seja um fenômeno midiático”. Porém, essa “aparente simplicidade oculta, para ser revelada, uma profundidade filosófica, histórica, de intertexto da literatura e outros diálogos que provoca”.
 
Sérgius Gonzaga destacou também a importância de se ter bibliografia sobre a obre de Quintana – que, hoje, ainda não é tão extensa –, fundamental para subsidiar o ensino a respeito de sua poesia e ajudar a mostrar a riqueza e a complexidade de seu trabalho. “Mario Quintana é mais que um simples elaborador de frases graciosas, ele é um grande poeta. Drummond compreendeu isso, Bandeira compreendeu, Cecília Meirelles compreendeu… Os grandes poetas tinham Quintana como alguém do seu grupo, alguém próximo, alguém da sua própria grandeza”, afirma.
 
Sérgio de Castro Pinto, diz que “o legado de Quintana, assim como de Bandeira, é o legado da simplicidade difícil” e reafirma que ambos procuram extrair o novo de dentro do velho. Porém Pinto acredita que a real compreensão do legado do poeta só será compreendida quando ele tiver mais leitores - assim como a poesia, de maneira geral, precisa de mais leitores. Mitidieri concorda que o legado de Quintana está relacionado à aparente simplicidade de sua obra, que permite uma série de desvendamentos e que continua atual hoje em dia. Ele declamou, ainda, o poema A Torre do Sono, homenagem de Élvio Vargas a Quintana. Sergius Gonzaga afirmou estar de acordo com os demais participantes em relação ao legado do poeta e leu o poema O Bar, que representa, para ele, uma espécie de síntese do trabalho de Quintana, com sua linguagem acessível, um certo humor e melancolia. Ao final da transmissão, Élvio Vargas realizou uma participação declamando o poema O Mapa, de Mario Quintana.

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