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Um quiosque de histórias

foto braga - trensurb

Fim de tarde de uma sexta-feira. O Kiosque do Braga, na Estação Aeroporto, segue na ativa até às 19h. O balcão de salgados, quase vazio, era um reflexo das boas vendas do dia. Há quase dez anos, José Vicente Boeira Braga chega na plataforma pouco antes das seis da manhã para atender os primeiros passageiros que chegam até ele atrás de um café quente para despertar, um salgado ou para um bate-papo.

Aliás, bate-papo é o que não falta. “A grande maioria das pessoas acaba circulando por aqui todo dia no mesmo horário. A gente acaba convivendo, fazendo vínculos, ouvindo os problemas das pessoas…”, diz Braga. A prova disso veio em seguida, atendendo uma cliente. “Fala guria! Que tu anda tão pensativa, meu Deus?” questiona à passageira, que diz estar gripada. “Também! Não tem comido mais pão de queijo, aí se gripa fácil. Tu sabe que o pão de queijo ajuda na saúde” responde o comerciante.

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Braga diz que agora, durante o inverno, o que mais sai no seu quiosque é o tradicional cafezinho, na maioria das vezes acompanhado de uma história:

Já vi acontecer de tudo aqui na plataforma. Teve uma vez que eu vi um casal sair do trem brigando, e a mulher, baixinha, tentava bater na cara do marido, um cara alto. Dia desses um senhor desceu aqui, passou mal e caiu nos trilhos. O pessoal da Trensurb resgatou ele intacto. Estava se recuperando de uma cirurgia, ficou zonzo e foi parar lá embaixo”. “Teve aquele dia que o rapaz perdeu a carteira aqui na estação e estava bem desesperado”, complementa uma das clientes que estava por perto, tentando comprar um pão de queijo, mas não encontrava o dinheiro dentro da bolsa. “Aqui a gente fica até com vontade de dizer para as pessoas ‘organiza essa bolsa’, mas se segura para manter a clientela”, diz Braga, que arranca uma gargalhada da cliente.

Eu até brinco de vez em quando que a qualquer momento vou trocar o letreiro de ‘Kiosque do Braga’ para ‘Divã do Braga’, de tanta coisa que eu ouço aqui. Eu tenho uma cliente que é psicóloga, e eu já encaminhei pra ela muitos pacientes que vinham aqui (risos). É uma coisa cativante, por que tu consegue ajudar as pessoas de alguma forma”, afirma. “Ele percebe o que a pessoa está querendo ouvir e fala. Se alguém precisa desabafar ele ouve, se alguém precisa de uma palavra de carinho ele diz”, conta sua esposa. “A gente faz muita amizade aqui. Já recebi convite pra formatura, batizado… Tem gente que desce aqui na Estação Aeroporto só pra pegar um lanche comigo. São relações que a gente constrói ao longo do tempo”, explica o vendedor.

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Braga mora em Porto Alegre. Em função do horário e das mercadorias e lanches que precisa levar para o quiosque, vai de carro até a Estação Aeroporto. Mas costuma utilizar os trens para ir até o Centro: “O trem é uma maravilha em todos os sentidos. Agora com a construção do Aeromovel a expectativa de movimento é grande”.  O que temos certeza é que não só de clientes, mas de outras histórias e conexões com novas pessoas que por ali vão circular. Concorda, seu Braga?

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