Entrevista: Liana Timm e seu afeto por Porto Alegre

Desde 10 de julho, os monitores do Canal Você, em trens e estações, exibem a exposição intinerante Cidade do Meu Olhar, assinada pela artista Liana Timm. O trabalho de Liana é divulgado também nos perfis da Trensurb nas redes sociais, incluindo o videoarte completo no YouTube. A peça destaca fragmentos da série Cidade do Meu Olhar, que reúne cerca de 300 obras criadas pela artista em diversos momentos, buscando sempre pensar a cidade de Porto Alegre através de sua história e contemporaneidade. Iniciada em 1986, a série segue em progresso, acrescentando o que a urbanidade oferece de tempos em tempos. Cidade do Meu Olhar segue em exibição nos monitores do metrô até 31 de agosto.

Artista multimídia, arquiteta, poeta e designer, Liana Timm nasceu em Serafina Corrêa, no interior do estado, mas adotou a capital gaúcha, da qual fez uma inspiração para suas obras. Liana tem mais de 40 livros publicados, cerca de 70 exposições individuais e participou de mais de 100 coletivas, recebendo diversos prêmios e, em 2008, o título de Cidadã Honorária de Porto Alegre, da Câmara Municipal. Dirige a Território das Artes Editora, especializada em artes visuais, literatura e ciências humanas. Foi uma das participantes da Antologia Digital da Poesia Gaúcha, projeto da Trensurb que veicula – nos monitores de trens e estações, além das redes sociais – vídeos de poetas declamando suas poesias.

Confira a seguir a entrevista que fizemos com ela a respeito de Cidade do Meu Olhar, de sua relação com Porto Alegre e sua trajetória como artista multimídia.

Como surgiu a ideia de fazer a série Cidade do Meu Olhar?

Liana Timm – Desde 1986 me dedico ao tema Cidade do Meu Olhar. Nasceu quando eu estava elaborando as obras para o livro Quintana dos 8 ao 80. Convivi com o poeta durante seis meses e tomei contato com sua poesia de forma profunda. Para criar os trabalhos da publicação tive que entender verso a verso o significado daquelas palavras e, como já apreciava a poesia de Quintana, esse novo momento me fez admirá-lo ainda mais. Após esse contato veio a vontade de ampliar minha produção sobre a cidade e a partir daí continuei a fazer obras em torno da história e da atualidade de Porto Alegre.

Como funcionou teu processo criativo para essa série?

Liana Timm – Nasci em Serafina Corrêa e aos 3 anos meus pais se mudaram para Porto Alegre. Como médico meu pai iniciou sua vida profissional no interior e depois veio para a capital, onde se estabeleceu. Moramos em vários bairros: Independência, Rio Branco, Petrópolis, Santana, Moinhos de Vento, Cidade Baixa e Cristal. Vivi intensamente cada um deles e tais vivências fizeram aumentar meu amor pela cidade. Além disso, tive oportunidades que me possibilitaram produzir textos e imagens sobre vários aspectos emblemáticos de Porto Alegre. Assim, fui gradativamente colecionando exemplares que reuni, em parte, no vídeo que criei para a Trensurb.

Como é tua relação afetiva com Porto Alegre?

Liana Timm – É muito natural que a cidade em que se vive seja motivo de afeto. Assim, Porto Alegre tem extrema importância tanto na minha trajetória artística quanto pessoal. Posso viajar para os lugares mais fascinantes, mas voltar é sempre reconfortante. Me envolvo com os problemas sociais, ambientais, culturais, artísticos e políticos de nossa cidade, pois entendo ser uma responsabilidade cidadã ser ativa no que diz respeito às melhorias que precisam ser implantadas para que todos possam ter uma vida digna e produtiva.

Como funciona teu trabalho como artista visual e multimídia?

Liana Timm – Meu trabalho nas artes visuais visita várias técnicas e materiais. Trabalho com a manualidade e a tecnologia. Com o analógico e o digital, com a história e a contemporaneidade. Misturo linguagens e me aproprio do que me parece necessário no momento. A liberdade de escolha e pensamento são prioridades para todo artista.

Como foi tua trajetória artística e profissional?

Liana Timm – Este ano faço 52 anos de dedicação às artes visuais e 35 anos de poesia. Muitas realizações e histórias para compartilhar. Um caminho trilhado com muita dedicação, perseverança e paciência. E, acima de tudo, muita paixão. A arte para mim é como o oxigênio: fundamental e insubstituível. Uma maneira de ser.

O que significa pra ti ter a série Cidade do Meu Olhar exposta de forma itinerante nos trens?

Liana Timm – O que mais aprecio é fazer circular a minha produção artística em ambientes fora do circuito convencional da arte. Tenho muita satisfação em estar presente nas estações, nos vagões e nas redes sociais da Trensurb. Que todos possam conviver com a arte e entender a sua importância no nosso dia a dia. A arte transfigura o óbvio e possibilita novos olhares sobre a vida.




Antologia Digital da Poesia Gaúcha: José Nedel

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de José Nedel, declamados pelo próprio autor. São eles: Reinvenção da roda, Safras medianas e Onça bebe águaClique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Nessa primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Natural de Itapiranga, em Santa Catarina, José Nedel mudou-se ainda jovem para o Rio Grande do Sul, onde estudou e trabalhou por quase toda sua vida, na capital e em diversos municípios do interior. Hoje, reside em Porto Alegre. Graduado em Letras Clássicas, Filosofia e Direito, é mestre e doutor em Filosofia. Juiz de direito e professor aposentado, é autor de muitos artigos em jornais, revistas e obras de autoria coletiva, bem como de duas dezenas de livros individuais, entre os quais estes puramente literários: A curvatura da razão: poemas (2009); A vez do verso: sonetos (2011); A vez do verso: quadras (2012); Última floresta: sonetos (2015); Quadras em metro (2016); Vida breve: sonetos (2018). Ocupa a cadeira 34 da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL). Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

José Nedel – Trata-se de uma iniciativa maravilhosa do escritor e poeta Élvio Vargas, meu colega na ARL [assessor da Trensurb e organizador do projeto]. A iniciativa propiciará diariamente a milhares de usuários do trem contato com poemas, a fina flor da literatura. Representará para eles, que se encontram, muitas vezes, em meio à correria imposta pelos afazeres da vida, um valioso momento de emoção estética e reflexão. Sinto-me honrado pelo convite para participar do projeto. Um poema bem executado é a criação de um tipo de beleza. O belo é uma forma de bem. Afinal, o que importa na vida é fazer o bem.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

José Nedel – Escrevia desde os meus tempos do ginásio, quando tinha 14 ou 15 anos de idade. Posteriormente, revia os textos guardados, emendando alguns e descartando outros. Como professor, costumava registrar em textos as matérias que lecionava. Muitas vezes, mimeografava-os para os alunos. Retocados mais tarde, tais escritos passaram a formar a maioria dos livros que publiquei, vinte obras individuais até agora, entre elas seis de poemas, na forma de sonetos e quadras. Escrevi também muitos artigos em jornais, grande parte aproveitada na composição de meus livros.

O que motivou a escolha do poema Reinvenção da roda para a Antologia? O que ele significa para ti?

José Nedel – Escrevi este soneto, motivado por uma frase do médico e escritor Alcides Mandelli Stumpf, autor de Amigos & Medos. Em entrevista publicada no Correio do Povo, Caderno de Sábado, 26/01/2019, p. 4, ele disse: “Existe uma tendência de reinventar a roda”. A expressão não era nova para mim, mas naquele momento me causou um impacto: a instantânea percepção de que serviria como chave de ouro de um soneto. A partir disso, passei a compor-lhe o corpo, com começo, meio e fim, como deve ser de praxe. O poema incorpora um toque biográfico: a aprendizagem de que, com a idade, tendemos a ficar mais modestos nos arroubos, mais conformados com as limitações naturais e mais realistas nos projetos e empreendimentos.

E quanto a Safras medianas?

José Nedel – Escolhi este soneto para a Antologia porque é condizente com a condição humana comum a todos: a mistura de bens e males, de alegrias e sofrimentos, de vitórias e derrotas. Em geral, alcançamos média razoável dessas realidades ambivalentes e agridoces, uma espécie de safras medianas, sendo raras as ótimas, primorosas, excelentes. É da vida, da experiência de cada um.

E o poema Onça bebe água?

José Nedel – A expressão “Um dia a onça vem e bebe água” é bem conhecida. Certa vez, a Cláudia Tajes a usou em comentário acerca do Prêmio Camões concedido ao cantor, compositor e escritor Chico Buarque, em 2020. Ao ler a crônica da Cláudia, tive a intuição de que a expressão dava para o fecho de um poema, no caso, um soneto. A partir disso escrevi o texto. O poeta, como todo artista, precisa de um choque, estalo ou assombro causado por fato, circunstância, pessoa ou frase que lhe desperte a inspiração. O fazer humano nunca é ex nihilo, vale dizer, a partir do nada. Também não sai perfeito, por via de regra, na primeira tentativa. É preciso fazer e refazer, tentar sempre de novo, aperfeiçoar até que dê certo. E um dia dará, se Deus quiser. Assim se realiza o belo na arte, “aquilo que visto (ouvido, percebido, conhecido) agrada”, segundo a clássica definição de Tomás de Aquino.

Como é teu processo criativo?

José Nedel – Escritos de natureza filosófica surgem das atividades profissionais do magistério: escrevo os textos para as aulas que, reunidos e retrabalhados, formam livros. Poemas surgem a partir de assombros, choques ou intuições despertadas por imagens, coisas, pessoas, palavras ou textos sugestivos. Tudo demanda muita leitura, anotações, estudo, reflexão e prática. Bem escrever requer, primeiro que tudo, bem pensar. Meus cursos de Letras Clássicas, Filosofia e Direito valem para isso: formam um tripé que sustenta o meu fazer literário.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

José Nedel – Na área teórica, meus temas prediletos são de teoria do conhecimento. Na área prática, são temas de ética, estética e filosofia do direito. Meus textos literários sempre têm algum conteúdo filosófico, moral, espiritual ou bíblico. Por sinal, a Bíblia, o livro dos livros, é um repertório inexaurível de temas de reflexão que podem ser apropriados, de modo especial, em forma de sonetos.

37 ANOS DE COOPERAÇÃO NA FAMÍLIA DE METROVIÁRIOS

Irineu Wermuth tem 65 anos e é natural de Candelária. Antes de ingressar na Trensurb, ele trabalhou como eletricista em algumas empresas e como autônomo no Banrisul. Prestou concurso público em 1984 e trabalha na Trensurb desde então, no Setor de Energia (Senerg). Sua função, atualmente, é de assistente de serviços gerais e administrativos. Sobre seu dia a dia na empresa, ele afirma: “O bom do nosso serviço nas subestações é que todos os colegas são treinados para as funções e sempre estamos aprendendo algo novo com as modernizações. Só tenho a agradecer aos meus colegas pela cooperação. Somos uma família de metroviários”. Ele conta que um de seus principais objetivos profissionais é repassar seus conhecimentos adquiridos ao longo dos anos para a próxima geração da Trensurb.

No seu tempo livre, Irineu gosta de viajar para as serras catarinenses e, sempre que pode, vai pescar com o filho e passar um tempo com a família e a neta Taissa, que ele criou como se fosse sua filha: “Eu e meu filho Vinícius somos muito parceiros. Também adoro ver séries e me reunir com minhas duas filhas, a Camila e a Gabriela. Só tenho a agradecer a Deus pela família que tenho e pelos filhos bem encaminhados na vida profissional. A Taissa, minha neta, é um amor de pessoa! Eu amo muito meus netos”. Um sonho que aspira muito realizar é o de viajar para Portugal.

Irineu diz que é muito grato à Trensurb: “Quase tudo que adquiri foi graças ao tempo de serviço na Trensurb. No meu setor, só tenho a agradecer aos meus colegas pela boa convivência e pela liberdade que temos para decidir sobre os serviços a serem executados”.

Antologia Digital da Poesia Gaúcha: Mauro Ulrich

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de Mauro Ulrich, declamados pelo próprio autor. São eles: FantásticoO Velho Pubi e SábadoClique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Nessa primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

O poeta Mauro Ulrich, 56 anos, é natural de São Leopoldo e atualmente reside em Santa Cruz do Sul. Publicou, pela Editora Gazeta, os livros de poesia Cellophane Flowers (2011) e Sleeping Bag (2015). Junto com os poetas Romar Beling e Daniela Damaris, mais o fotógrafo Lula Helfer participa do livro Trinta e Seis: Fotos com Poesia. Também tem poemas publicados nas antologias Escritores do Pedrinho e Poetas do Vale, entre outras. Neste ano, foi contemplado com o Prêmio Trajetórias Culturais e prepara o lançamento de mais um livro de poemas, que vai se chamar Stupidman. É assíduo organizador de saraus e tudo o mais que envolva arte e cultura, nas mais distintas áreas da expressão. Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

Mauro Ulrich – Bem, começa que eu sempre gostei muito de ver aqueles trens da Trensurb, aqueles gigantes de ferro andando, esticando-se sobre trilhos, andando da capital para o interior, interior para a capital. Eu sempre gostei muito de andar nos trens da Trensurb. Aquelas conexões por túneis, ali no Mercado Público, na Rodoviária. Enfim, as plataformas, aquela gente toda na plataforma, as pessoas no trem, nós passando de carro pela BR-116 e apostando uma corrida imaginária com os trens da Trensurb. Eu sempre achei uma coisa muito maravilhosa, muito encantadora e sempre, pra mim, foi sinônimo de conexão com o futuro, com uma coisa meio cinematográfica. E agora fazendo essa conexão também digital, que é uma coisa moderna, de colocar a poesia gaúcha, nessa plataforma digital, escolhendo alguns dos poetas gaúchos. Me honra poder participar desse projeto, um convite que aceitei de coração aberto do meu querido amigo, poeta Élvio Vargas e estou muito feliz em poder participar, porque eu percebo que o time é de primeira categoria, são todos excelentes, grandes poetas. E estar junto com essa turma toda, num projeto da Trensurb, só empresta qualidade, só empresta seriedade a um gênero que, muitas vezes, é subjugado, inclusive, por mais incrível que possa parecer, por algumas pessoas que o praticam, né? A poesia, às vezes, é colocada num segundo plano quando, na verdade, é um dos gêneros mais importantes da literatura mundial. Muito contente em participar e tenho certeza que é um projeto que fará um grande sucesso.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

Mauro Ulrich – Bem, eu tenho a impressão que eu escrevo desde sempre ou, pelo menos, desde quando eu aprendi a ler. Garoto criado num apartamento no Centro de São Leopoldo e filho único, durante muitos anos, não tinha muitas possibilidades de outras coisas a não ser me interessar pela leitura, que era uma coisa que foi passada pra mim de pai e de mãe pra filho. No caso, porque eu sempre via principalmente a mãe, muito interessada na leitura, né? A primeira imagem que eu tenho de minha mãe é ela sentada numa poltrona, lendo um livro e o apartamento com as paredes forradas de livros. Então, isso me motivou muito nesse interesse pela leitura e, consequentemente, alguns anos depois de alfabetizado, pela palavra escrita. Eu lembro que o trampolim mais claro sobre isso foi um poema que eu publiquei, quando eu deveria ter por volta de uns onze, doze anos, numa antologia, daquelas antologias de escola. Eu estudava na Escola Estadual Pedro Schneider, o famoso Pedrinho, em São Leopoldo, e os professores de português promoviam aquelas antologias com crônicas e textos, redações, poemas, desenhos dos alunos e tal. Eu participei de uma dessas antologias. E aquilo foi uma coisa maravilhosa, porque meio que me destacou entre os demais colegas da turma, com um poema, assim, sobre uma praça lá de São Leopoldo. E aquilo foi muito legal, porque eu acabei me tornando um cara meio popular, assim, na minha turma. E, inclusive, entre as garotas também, né? Enfim, momentos. Então, eu decidi que era mais ou menos isso que eu queria pra minha vida. Eu vou escrever pra ver se eu consigo me dar bem, de uma certa forma, me tornei jornalista, né? E hoje tenho, então, três livros de poema publicados, três livros de forma oficial, porque, muito antes disso, já fazia o que se convencionou chamar a tal da poesia marginal, lá pelos anos 80, escrevendo poemas em máquina de escrever e grampeando e vendendo na universidade. Enfim, o começo se deu mais ou menos por aí.

O que motivou a escolha do poema O Velho Pubi para a Antologia, o que ele significa para ti?

Mauro Ulrich – Esse poema, O Velho Pubi, que é o primeiro que eu mando pra Antologia da Trensurb, faz parte também do meu primeiro livro, o Cellophane Flowers, de 2011  e eu escolhi ele porque, com ele, se deu uma coisa engraçada. Porque, na verdade, se dependesse de mim, ele nem estaria no primeiro livro, porque eu considerei, na época, um poema um tanto singelo, mas ele foi parar no meu primeiro livro muito por força da vontade do meu editor, o também poeta Romar Behling, que descobriu nele um certo valor que eu ainda não tinha visto. E foi tudo muito engraçado, porque esse poema, O Velho Pubi acabou se tornando um dos hits da minha produção, porque ele é um poema que, mais tarde, foi alvo de estudo no curso de Letras da Unisc, a Universidade de Santa Cruz do Sul. Ele é um poema que foi estudado pelos alunos desse curso, da universidade, é um poema que foi lido em voz alta no seminário de língua e literatura, em Rio Pardo, por um dos autores que participaram do seminário. Enfim, é um poema que se tornou muito popular e, o mais engraçado, ele é um poema que, se dependesse de mim, nem estaria no meu primeiro livro. Ele é uma uma homenagem, um tanto singela, creio eu, que eu fiz pro meu avô, o pai do meu pai.

E quanto a Fantástico?

Mauro Ulrich – Bem, como em Velho Pubi eu homenageio o pai do meu pai, o Fantástico é uma espécie de homenagem, então, ao pai de minha mãe. Ambos já são falecidos. E Fantástico é um poema mais novo. É um poema que foi feito creio que no ano passado. É um poema mais recente, é um poema inédito, ele ainda não foi publicado em nenhum dos livros, deve ir para o meu próximo livro, que está sendo preparado e fala de uma ida nossa, coisas de memória, pensando coisas de infância, adolescência e tal, uma ida nossa, da família, eu, o pai, a mãe, ao cemitério, naqueles cortejos de finados, talvez, ou num domingo qualquer, sei lá, para a mãe ir com frequência até o cemitério no interior de Canoas, ali, distrito de Nova Santa Rita, onde, então, estão enterradas algumas pessoas da família, inclusive esse meu avô, que é o protagonista desse poema. Então, o poema narra uma ida até lá, naquelas estradinhas de chão batido, de Berto Círio, interior de Canoas. E aquela coisa da mãe, a mãe que limpa o túmulo do seu pai, sempre com tanto carinho e as memórias dela, e as histórias que ela nos contava sobre ele, e um vô, também, muito amado por todos nós. Eu acho que termina com a gente retornando pra casa, claro, isso num domingo à noite, pra assistirmos ao Fantástico – O Show da Vida, fazendo alusão ao famoso programa de TV, que dá todas as noites de domingo, que também é uma espécie de fechamento do final de semana, assim, algo meio bucólico, meio deprimente, mas eu acho que é um poema bacana. As pessoas até pode, me dar um retorno pra dizer se eu coloco ele ou não no próximo livro, né? Eu acredito que sim, vamos ver.

E o poema Sábado?

Mauro Ulrich – O poema Sábado que foi a minha escolha como terceiro poema dessa série, então, pra participar da Antologia da Trensurb. É o poema que fecha o meu livro mais recente e é um poema mais longo. Talvez o poema mais longo que eu já produzi até então. Eu tenho um carinho muito especial por ele justamente porque ele significa o fechamento de um ciclo, né? Todo livro é um fechamento de um ciclo e ele tem um caráter mais de crônica. Ele é, talvez, o poema com mais cara de prosa de tudo que eu já escrevi na minha vida em termos de poesia. Ele narra um dia de sábado, um dia normal de sábado, com seus cheiros, seus sons, tudo que acontece numa manhã, no início de sábado, e ele nasceu justamente quando eu acordei e sentei na cama, coloquei os pés no chão e o poema me veio quase que como psicografado, assim, no seu inteiro e eu gosto muito dele. Eu tenho certeza que as pessoas também vão gostar dele. Nos coloca num dia de sábado, ouvindo os sons de pessoas que estão na cozinha cozinhando, o cheiro da comida, o som da voz de meu filho na sala, o barulho dos talheres e o ronco da minha barriga, o som de alguém que passa com uma motocicleta na rua, aquela pessoa que vem entregar a santa, o que é muito comum ainda no interior, aquela passagem da santinha de casa em casa, pras orações. Tudo isso num dia de sábado. Eu espero que as pessoas gostem desse meu querido poema, Sábado.

Como é teu processo criativo?

Mauro Ulrich – Meu processo criativo não tem nenhum mistério, não tem nenhum segredo, é bastante simples e, na verdade, nada de muito especial. O mais importante para que eu construa um poema é que eu esteja me sentindo bem, isso é fundamental. Eu tenho que estar me sentindo bem pra que eu escreva bem. Eu sou um poeta que, ao contrário de muitos outros, não consigo escrever bem na tristeza, não consigo escrever muito bem com algo que esteja me incomodando, mas eu escrevo melhor quando eu estou me sentindo em paz, saudável, sem dor,  sem preocupações, enfim, o que nos dias de hoje é bastante raro. Mas é assim que eu escrevo melhor. Eu escrevo, geralmente, à mão. Eu tenho vários blocos e cadernos espalhados pela casa, enfim, estou sempre catando canetas também. É pra quando vem, não sei se o correto seria dar o nome de inspiração, mas é que quando o poema vem, ele vem praticamente na sua íntegra e eu tenho meio, não preciso me isolar pra isso, eu me sento em qualquer canto da casa. Eu escrevo, principalmente, quando estou em casa e escrevo sempre à mão. E o processo é esse, eu escrevo o poema, eu reescrevo, eu guardo ele.  Eu tenho aqui uma caixa especial onde eu guardo recém-feito pra que, no outro dia, depois de passadas vinte e quatro horas, eu volte a ler esse poema. E se esse poema me diz alguma coisa, se esse poema eu considero satisfatório, ele então, sim, vai ser digitado no meu notebook, computador, e aí ele, automaticamente, já fica ali separado pra uma próxima publicação, o que quer que seja. Mas se eu vejo que o poema, numa releitura, não me diz nada e não está bem, eu simplesmente elimino. Mas o segredo é esse: eu tenho que estar me sentindo bem. Eu escrevo melhor no inverno também, é outra coisa estranha, mas no calor, no verão, com temperaturas quentes, eu não me sinto muito bem e, com isso, eu não escrevo nada bem. Agora, no inverno, eu me sinto maravilhosamente bem. E eu acho que a poesia, ela flui melhor nessa estação do ano. Eu acho muito legal criar no inverno, eu fico esperando o inverno chegar pra que eu possa me tornar um cara mais criativo.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

Mauro Ulrich – Na verdade, eu não trabalho com uma temática específica. Sou um poeta. Já fiz poemas de cunho social, poemas românticos e tal. Eu acho que eu transito um pouco por cada uma dessas coisas e o que mais me seduz são aqueles pequenos acontecimentos do cotidiano que às vezes passam desapercebidos pela maioria das pessoas. Eu gosto muito daquela definição clássica e que se tornou chavão, que é uma definição que eu acho maravilhosa, de Ferreira Goulart, quando ele diz que o poema dele nasce do espanto, né? Do espanto frente as coisas da vida. Eu também me espanto com a mosca que passa, com um chapéu pendurado no cabide, com uma toalha molhada em cima da cama e tento transformar essas pequenas coisas do nosso cotidiano em algo belo, algo agradável aos olhos e aos ouvidos de quem lê a poesia. Eu acho que a poesia está contida em tudo, basta você ter olhos, olhos sensíveis pra saber traduzir e transformar isso em literatura. E nós, aqui no Rio Grande do Sul, temos grandes poetas que fazem isso com uma destreza fenomenal e eu muito me orgulho de ser amigo de um deles, Élvio Vargas, que eu considero hoje, nessa coisa da temática do cotidiano, um cidadão supremo, absoluto. Gostaria de um dia chegar aos pés na construção de um poema. Muito me inspiro nas coisas que ele escreve e, enfim, acho um excelente poeta. Mas a minha poesia nasce das coisas do dia a dia, da rotina, do cotidiano. É um trem que passa sobre os trilhos, uma pessoa que chora lendo um livro, no trem, uma criança que brinca no corredor do trem. A poesia anda sobre os trilhos, ela está contida no interior de cada trem da Trensurb também e eu amo tudo isso.

Muito obrigado pela oportunidade de poder participar desse projeto que eu já considero maravilhoso e contem comigo sempre, que eu estarei sempre à disposição da Trensurb. Um grande abraço a todos.

Orgulho de ser metroviária

Jubira Teresinha Alves de Abreu é natural de Porto Alegre e ingressou na Trensurb em 1986, através de concurso público. Ela trabalha como operadora de trens já há 35 anos e fala sobre uma das coisas preferidas em sua função: “Quando estou pilotando adoro passar pelos meus amigos na via e acenar para eles! Sempre vou fazer o que fiz de melhor, adoro o que faço”.

Quanto ao seu tempo livre, Jubira afirma: “Antes gostava de me reunir com meus amigos, o que agora, por conta da pandemia, está sendo impossível, então passo o tempo escutando muita música boa, lendo e assistindo séries. Meu gênero preferido é drama e romance”. Ela tem um filho e diz que seu sonho é ter um neto.

Sobre o Setor de Tráfego (Setra), onde trabalha, a operadora afirma que é maravilhoso e que os colegas são muito divertidos: “Adoro o que faço, o meu setor. Sou muito orgulhosa por fazer parte desta família”. Ela fala ainda do quanto é grata à empresa por tudo que proporcionou em sua vida: “Eu tenho muita gratidão, pois tudo o que tenho devo à Trensurb, porque, através dela, eu conquistei tudo o que tenho. Eu tenho orgulho de ser metroviária, aqui é minha segunda família”.

Antologia Digital da Poesia Gaúcha: Lilian Rocha

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de Lilian Rocha, declamados pela própria autora. São eles: A Poeta, Garganta e Tranças II. Clique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Nessa primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Natural de Porto Alegre, Lilian Rose Marques da Rocha, além de escritora, é farmacêutica e analista clínica (UFRGS), especialista em Homeopatia (ABH), musicista (Liceu Palestrina) e facilitadora didata de Biodanza (IBF), com formação em Educação Biocêntrica (CDH/UB). É autora dos livros A Vida Pulsa – Poesias e Reflexões (Editora Alternativa, 2013), Negra Soul (Editora Alternativa, 2016) e Menina de Tranças (Editora Taverna, 2018). É coautora do livro Leli da Silva – Memórias: Importância da História Oral (Alternativa, 2018) e coorganizadora da antologia Sopapo Poético – Pretessência (Editora Libretos, 2016). É também membro da coordenação do Sarau Sopapo Poético, acadêmica da Academia de Letras do Brasil- Seccional RS, diretora de Organizações Sociais da ALB-RS, conselheira da Associação Negra de Cultura (ANdC), membro da Sociedade Partenon Literário e da International Writers and Artists Association (IWA), Acadêmica da Academia Internacional União Cultural, membro da Comissão Sobre a Verdade da Escravidão do Rio Grande do Sul – OAB-RS, membro do Mulherio das Letras, do Coletivo Poemas à Flor da Pele e do Coletivo Arte Negra, acadêmica da Academia Internacional de Literatura Brasileira, membro do Catálogo Intelectuais Negras Visíveis (UFRJ) e do Portal LiterAfro (UFMG), membro da Associação de Jornalistas do Brasil – Coordenadoria do Rio Grande do Sul e acadêmica da Confraria Internacional de Literatura e Artes. Participa de inúmeras antologias poéticas brasileiras e portuguesas. Seus poemas são publicados em vários sites, blogs, revistas e redes sociais. Confira a seguir a entrevista que fizemos com ela a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

Lilian Rocha – A minha avaliação do projeto não poderia ser diferente, é que o mesmo possibilita a divulgação da poesia gaúcha para um número enorme de pessoas, que talvez não tenham tido outra oportunidade de conhecer esse gênero literário de forma tradicional, que é o livro impresso. Fico feliz de fazer parte dessa edição, pois é uma maneira de tornar a minha poesia mais conhecida no Rio Grande do Sul.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

Lilian Rocha – Comecei a escrever pequenos contos e crônicas logo depois que eu me alfabetizei. Eu era uma apaixonada por Agatha Christie. No ensino médio, na disciplina de literatura, comecei a escrever poemas e não parei mais. No final dos anos 90, participei de um curso de extensão na Unisinos, em conjunto com o CECUNE (Centro Ecumênico de Cultura Negra) que se chamava Universidade Livre. E o curso era de extensão, se chamava Curso de Africanidades, havia a disciplina Literatura Negra, foi lá que eu tomei contato com escritores como: Oliveira Silveira, Cuti, Elisa Lucinda, Conceição Evaristo e muitos outros. Me apaixonei mais sobre a temática, principalmente com relação à poesia negro-brasileira. Sou formada em Farmácia, com ênfase em Análises Clínicas, mas a literatura sempre foi muito importante para mim. Então, em 2013, publiquei o meu primeiro livro, A vida Pulsa – Poesias e Reflexões, junto com um olhar mais focado na literatura a partir de 2012, porque eu comecei a participar de vários saraus aqui em Porto Alegre, publicava muito nas redes sociais, realizei e facilitava cursos com enfoque na música e na poesia. Então, a partir daí, o foco foi muito grande. Já são três livros autorais e mais de 40 antologias poéticas, tanto brasileiras quanto portuguesas.

O que motivou a escolha do poema A Poeta para a Antologia, o que ele significa para ti?

Lilian Rocha – A Poeta é um poema muito significativo pra mim, pois a primeira versão era “O Poeta” e daí eu me dei conta que era necessário mudar o gênero do sujeito, pois eu estava falando de mim e o quanto muitas vezes a mulher é invisibilizada na literatura. Então eu fiz uma modificação e coloquei A Poeta para destacar bem que existem mulheres na literatura.

E quanto a Garganta?

Lilian Rocha – Garganta é um poema que está no meu livro Menina de Tranças, no capítulo Menina Mulher, que trata do silenciamento de muitas de nós mulheres, que sofremos e que somente no coletivo podemos ultrapassá-los. Garganta traz essa temática.

E “Tranças II”?

Lilian Rocha – Tranças II está também no meu livro Menina de Tranças. Ele praticamente finaliza o livro, trazendo a importância da ancestralidade através das mulheres negras, com histórias que se trançam no afeto, na resistência e na resiliência.

Como é teu processo criativo?

Lilian Rocha – Sempre fui muito observadora do ordinário. Do ordinário do cotidiano que eu extraio o extraordinário. Um fato, uma cena, uma palavra dão início a um fio da criatividade. A partir daí, é a inspiração que toma conta, que vai agindo. A partir de uma palavra escrita no meu bloco de anotações, vão se desenhando versos e prosas.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

Lilian Rocha – Como eu falei antes, eu sou uma observadora do cotidiano. Desde pequena eu ficava observando as estrelas quando chovia e eu ia pra rua sentir o cheiro de molhado da terra, as plantas, ficava observando as pessoas, o que elas falavam, como elas se sentiam. Então, a partir das minhas experiências em relação ao meio em que vivo, são os temas que mais aparecem – sendo que as temáticas são o protagonismo negro, o feminismo, questões sociais e políticas, sem deixar, é claro, o lirismo do cotidiano.