Mobilidade em debate – parte 2: panorama do setor e implantação do VLT

Recentemente, a Trensurb recebeu em sua sede um seminário realizado em parceria com a Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos). Intitulado “Desafios para o Avanço da Mobilidade sobre Trilhos na Região Metropolitana de Porto Alegre”, o evento contou com a presença de especialistas, gestores públicos e autoridades, buscando debater o futuro dos trilhos na mobilidade urbana e apresentar aos gestores os benefícios da expansão da rede metroferroviária. Nesta série de três publicações, trazemos os principais pontos apresentados no seminário, em seus painéis e pelos gestores presentes. Após destacarmos as manifestações das autoridades e gestores participantes, apresentamos um resumo do primeiro painel do evento, que trouxe um panorama da mobilidade urbana e as perspectivas do setor metroferroviário no Brasil, além de um olhar sobre os desafios para a implantação do VLT Carioca.

Na ocasião, o presidente do Conselho da ANPTrilhos, Joubert Flores, iniciou sua apresentação abordando o problema representado pelo atual nível de imobilidade nas grandes cidades, que afeta negativamente a produtividade e a qualidade de vida nas regiões metropolitanas. Além do elevado tempo de deslocamento, o modelo atual de transporte gera grande emissão de poluentes e elevado número de acidentes. A cada hora, cinco pessoas morrem em acidentes de trânsito no Brasil. R$ 3 bilhões foi o custo para que o Sistema Único de Saúde atendesse 1,6 milhão de feridos no trânsito entre 2009 e 2018. Para Flores, ao considerarmos esses fatores, justifica-se o investimento necessário para implantação de transportes sobre trilhos. A saturação do modelo atual e a crescente urbanização são outros elementos que reforçam a necessidade desse tipo de investimento. Segundo o painelista, nos últimos 70 anos, a população brasileira quase triplicou, enquanto que a população urbana cresceu em cerca de dez vezes. “O que estrutura é transporte de alta capacidade”, afirmou. Investimento nos modais desse tipo trazem mais agilidade, regularidade, mobilidade, capacidade e previsibilidade nos deslocamentos. Mas, para uma rede de transporte eficiente, é preciso haver integração entre os modais. “A rodovia tem a capilaridade que o trilho nunca vai ter, mas uma coisa não funciona sem a outra”, declarou. Algumas das vantagens adicionais da implantação de linhas metroferroviárias apontadas pelo painelista são a revitalização urbana, a valorização imobiliária e o desenvolvimento socioeconômico associados.

Apesar da necessidade de um volume considerável de investimentos para qualificação e ampliação da malha brasileira de sistemas de trilhos urbanos, Flores demonstrou que o custo total – incluindo-se implantação e operação – de um sistema de VLT ao longo de sua vida útil é menor que o de um sistema de BRT. Como o retorno é a longo prazo, porém, é necessário que esse tipo de investimento seja política de Estado e não projeto de governo. O painelista ainda apresentou brevemente cinco propostas prioritárias da ANPTrilhos para o avanço da mobilidade: elaboração de um abrangente plano de estruturação estratégica da mobilidade urbana nacional, com foco no transporte de passageiros sobre trilhos; definição de prioridades de investimentos no Plano de Mobilidade Urbana Nacional; fortalecimento de marcos regulatórios para conferir segurança jurídica aos empreendimentos; incentivo à modernização e à ampliação dos sistemas de transporte de passageiros sobre trilhos; instituição de taxas de financiamento mais atrativas para projetos estruturantes de transporte de passageiros sustentável.

A seguir, o diretor-presidente do VLT Carioca, Márcio Hannas falou da concepção, dos desafios da implantação e dos resultados das linhas operadas pela empresa no Centro do Rio de Janeiro. Segundo Hannas, o projeto surgiu para realizar a conexão entre modais que abastecem o Centro da cidade, além de promover a revitalização da zona portuária e a integração de bairros da região. Alguns dos desafios apontados pelo painelista foram o mapeamento de interferências a serem remanejadas, a prospecção de arqueologia para preservação de elementos históricos, a negociação de desapropriações necessárias e o planejamento do impacto das obras na rotina da cidade. Outra dificuldade mencionada foi a não realização da reconfiguração das linhas de ônibus da região, que deveria acontecer para racionalizar o sistema de transporte a partir do início da operação do VLT. Ainda assim, segundo Hannas, os resultados do projeto são positivos, com média de cerca de 80 mil passageiros transportados por dia, 92% de aprovação dos usuários e um legado importante para o turismo e o desenvolvimento urbano na região central do Rio de Janeiro.

Após as apresentações dos painelistas, abriu-se espaço para perguntas e discussões, que tiveram como foco o sistema de alimentação dos veículos do VLT Carioca, questões de integração tarifária, de valor da tarifa e de custos de implantação e operação de metrô e VLT.

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