Entrevista: Leandro Selister e o projeto “Leve a minha Cidade”

O artista visual Leandro Selister está trazendo seu novo projeto à Galeria Mario Quintana, na Estação Mercado da Trensurb: Leve a minha Cidade – Coleção Porto Alegre e Coleção Expressões daqui. A Casa de Cultura Mario Quintana, a Usina do Gasômetro e o MARGS são alguns dos desenhos da Coleção Porto Alegre, criados pelo artista para chamar a atenção para as belezas da capital. Na Coleção Expressões daqui, o autor busca inspiração na cultura pop e nas histórias em quadrinhos para apresentar uma espécie de dicionário ilustrado com expressões de uso cotidiano pelos gaúchos como “bah”, “bem capaz” e “arrecém”. As ilustrações do projeto permanecem na galeria até 29 de junho.

Confira a conversa que tivemos com Selister a respeito do trabalho dele.

Como o projeto surgiu e qual seu objetivo?

O projeto teve início em outubro do ano passado, quando lancei essas duas coleções, Coleção Porto Alegre e Coleção Expressões daqui. O objetivo principal do projeto é chamar a atenção para o que a cidade tem de melhor. Fazer as pessoas olharem em volta. Um dos motivos de ser Porto Alegre é que a cidade está muito “detonada”, então esse projeto é um lance de resgatar a cidade. Tem pessoas que olham e dizem que o desenho é muito bonito, mas tu vais ver ao vivo, é bem diferente. Então, por que não pode voltar a ser bonito? O objetivo é resgatar esse amor por Porto Alegre. Há três palavras chaves que comandam o projeto: perceba, proteja e preserve. A base é que as pessoas percebam as belezas da cidade, protejam e estimulem a preservação desses locais. Já a Coleção Expressões, possui essas palavras como base, mas seria mais no sentido de valorizar aquilo que é daqui, a nossa linguagem.

De onde surgiu a inspiração para criar painéis tão coloridos?

O painel de expressões, por exemplo, é totalmente inspirado na linguagem dos quadrinhos e na arte pop. Eu fiz dessa forma porque, como eu iria mostrar uma coisa que é tão formal? Aquilo é um dicionário ilustrado, tem que ser uma coisa alegre. Eu gosto de pensar que é uma coisa feita pra rirmos de nós mesmos. Essa coisa cheia de cor serve pra se distanciar um pouco do regionalismo, aquela coisa da tradição. É uma releitura contemporânea de algo que é extremamente tradicional. Fora a questão do meu traço, que eu busco o gesto e a expressividade ou, na arte do laçador, por exemplo, que remete direto ao artista Andy Warhol. Então, dessa forma, eu acabei utilizando toda a minha bagagem como fotógrafo e artista.

Conte-nos um pouco sobre sua carreira.

Estou no mercado trabalhando com arte há 20 anos. Já participei de muitas exposições e sempre foi na fotografia que eu me achei mais fácil. Eu observo muito, tenho até um projeto chamado Coisas do Cotidiano que é de flagrantes do dia a dia. Então fotografia é o que eu mais gosto de fazer, mas sinto que agora o desenho tem competido sério com a fotografia.

Como foi a sua experiência com os outros projetos já desenvolvidos com a Trensurb? Como é expor na Galeria Mario Quintana?

Este já o terceiro projeto que eu trago para a Trensurb. O primeiro, que foi uma coisa absolutamente inédita, a intervenção Cotidiano, algo que repercutiu pra caramba, porque, na época, 17 anos atrás, eu acredito que foi o primeiro projeto de intervenção urbana que eu vi na cidade, tanto que eu ganhei um premio em São Paulo por ele, mas vim executar aqui. Daí, em 2013, eu fiz o projeto que englobava QR code, onde eu distribuí 24 fotos. Projeto que eu também acredito que foi algo meio à frente, porque as pessoas nem entendiam direito o que era essa coisa do QR code. No fim, eu passei seis meses viajando, toda segunda-feira eu vinha e ficava no trem das 10h às 18h, colando cartazes com os QR codes. No final, as pessoas tinham 24 fotos gratuitas para serem impressas em alta qualidade. Agora, quando a Trensurb, me convidou para vir expor na galeria, eu pensei: esse projeto tem tudo a ver com a cidade e com o trem. Porque aqui passa tanta gente, é o lugar perfeito para esse projeto, que eleva a nossa cidade. As pessoas vão poder se identificar com os desenhos e se puderem ler o texto e ver o vídeo sobre o projeto utilizando o QR code, vão poder conferir essa declaração de amor para a cidade de Porto Alegre.

Como você vê esse projeto no futuro? Há algo novo em mente?

Tem muita coisa ainda para explorar desse projeto Leve a minha Cidade. E esse projeto tem toda uma questão de misturar arte com empreendedorismo: eu trabalho por conta há 20 anos, tenho meu escritório de designer. Há 10 anos, eu trabalho com adesivagem. Dessa forma, essa coleção foi pensada também para suprir um mercado de presentes e lembranças da cidade. Se tu precisares hoje de algo bacana de Porto Alegre tu vais achar cuia, bomba, Grêmio, Inter, prenda e gaúcho. Então eu acabei identificando um mercado que está carente de coisas legais. Todos esses desenhos estão disponíveis em canecas, almofadas, pôsteres, adesivos e postais. É um projeto que não foi pensado apenas como exposição, mas também comercialmente. Eu parto do objetivo de que esse projeto no futuro se sustente e que ele mesmo gere e permita que eu realize muitos outros projetos. E, com certeza, existem outras ideias de projeto, outras cidades que já comecei a desenhar, como São Paulo e Rio por exemplo.

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