Entrevista: cultura hip hop na luta contra o assédio

A Trensurb e o Comitê Gaúcho Impulsor ElesPorElas (HeForShe) desenvolvem, durante os próximos meses, a campanha ‘Fim da linha para a violência contra a mulher’, primeiro projeto coletivo do Comitê a provocar o tema pelo fim da violência contra mulheres em espaços de transportes públicos. Além de materiais gráficos divulgados no metrô, a campanha contará com intervenções artísticas com o uso grafite e de batalhas de rap que ocorrerão em estações selecionadas. Essas intervenções serão promovidas pelo Coletivo Hip Hop Linha do Trem, integrante da Casa da Cultura Hip Hop de Esteio. O Coletivo foi criado no segundo semestre de 2017, buscando promover o diálogo e a articulação em rede das cidades e dos jovens da cultura hip hop das regiões ligadas pela Trensurb. Foi um dos participantes do Linha do Trem, Rafael Diogo dos Santos – o MC Rafa, do grupo de rap Rafuagi –, que levou à secretária executiva do Comitê Impulsor ElesPorElas no estado, Karen Lose, a ideia de criar um projeto em que o hip hop, através da atuação do Coletivo, tivesse protagonismo na luta pelo fim da violência contra a mulher.

Leia a seguir nossa entrevista com Rafa Rafuagi, que falou sobre o Coletivo, a cena da cultura hip hop gaúcha e o protagonismo da mulher nesse espaço.

Como surgiu a Casa da Cultura Hip Hop de Esteio?

O dia 12 de novembro de 2017 foi um dia histórico para a cultura Hip Hop do estado. Após quatro anos e meio de luta por um grande projeto coletivo, a Associação da Cultura Hip Hop de Esteio, assinou o contrato de comodato com a senhora Flora Pigatto Acadorli, proprietária do imóvel onde foi instalada a primeira Casa da Cultura Hip Hop do Estado do Rio Grande do Sul, a maior da América Latina.

E como funciona o projeto?

A Casa é um espaço independente e inovador, que atende mensalmente 16 mil pessoas direta e indiretamente, totalizando 192 mil pessoas de todo Estado impactadas pelo projeto a cada ano. São ofertadas gratuitamente oficinas dos quatro elementos da cultura Hip Hop – DJ, MC, grafite e dança –, além de espaços temáticos como o 5º Elemento do Hip Hop – conhecimento –, coworking e biblioteca com 10 mil livros, estúdio público, centro de inclusão digital através da doação de computadores, oficinas de cinema, teatro, espaço de eventos, horta comunitária, quadra poliesportiva, dentre outros mecanismos de fomento à convivência e formação cidadã, gerando emprego e renda direta e indiretamente a diversos trabalhadores da cultura e promotores da paz no estado.

Tendo em vista o seu trabalho com o coletivo e a sua experiência nesse projeto, como você vê, hoje em dia, a cena local do hip hop?

A cena do Rio Grande do Sul é uma que desponta no país, seja pelo meio artístico, pelo meio social ou pelo meio de propagar a cultura hip hop dentro do setor da educação.  Nós somos referência no país e no mundo e a Casa da Cultura Hip Hop faz parte disso. Nós vemos uma crescente de acessos e seguidores nas redes sociais, algo que fortalece os novos grupos que vêm surgindo, porque a pessoa acha um e na sequência já acha outro. Então, sim, eu vejo uma cena crescendo e, além disso, vejo também que o meu trabalho hoje se conceitua e está em uma referência legal da qual já fizemos tudo que fizemos na carreira, tanto em projetos sociais ou em discos, mesmo assim acho que falta compartilharmos esses saberes que adquirimos na estrada para os novos que estão chegando agora. Para que assim, não precisem passar pelo mesmo caminho penoso que passamos para chegar onde estamos.

Como tem sido esse trabalho de alavancar a cultura hip hop no estado?

Enaltecer a cultura hip hop é sim um dos objetivos do nosso coletivo, o problema é que há muito potencial, porém pouca informação. Poucos sabem que podem participar, pressionar e fazer a diferença nos sistemas do governo e que há vários mecanismos de fomento, que até então, acabam monopolizados ou, de maneira seletiva, ficando com os mesmos. Nós também queremos disputar esses espaços, queremos disputar essas rubricas, queremos disputar coisas que até então foram negadas ou omitidas para o nosso povo. Queremos descolonizar a educação, lutar contra o patriarcado, lutar até mesmo contra o próprio capitalismo, de maneira que possamos trazer novos olhares sobre a economia, de forma criativa e solidária. O coletivo tem pensado nisso, voltado para a nossa região da linha do trem, mas que de fato engloba seis cidades e, dessa forma, acreditamos que estamos fazendo bastante ao pensarmos que o coletivo pode inspirar o surgimento de outros coletivos.

Você citou a questão do patriarcado. Fale sobre a importância do protagonismo das mulheres na cena hip hop e por que essa cultura é a ferramenta que vai levar essa mensagem?

Eu vejo que é muito importante o Hip hop abordar este debate dentro da sua cena por conta de ser uma cultura que, na sua grande maioria, é composta por homens e que propaga conceitos machistas. Então é um debate que precisávamos urgentemente fazer no hip hop. Creio que o HeforShe foi a forma que encontramos de implementar este debate, principalmente com os homens, porque, há muito tempo as mulheres já vêm tentando nos conscientizar para esse assunto e são poucos que se sensibilizam e se abrem para que esse debate possa ser amplificado. Quanto ao hip hop ser a ferramenta que vai levar esse debate à frente, isso se dá devido ao fato de que, dentro do Brasil, essa é a principal ferramenta de diálogo com as periferias, aliada ao funk. Por ter esse caráter informativo e cidadão, entendemos que a cultura hip hop é a ferramenta que pode dialogar com o maior número de jovens, tanto meninos quanto meninas, dentro das periferias e essa mensagem de “Eles por Elas” é de fato o que visamos para que possamos ter essa geração e uma próxima geração de homens mais conscientes do machismo que propagam.

Para finalizar, vocês já possuem um engajamento com relação ao tema de combate à violência contra a mulher. Fale um pouco sobre isso.

A Casa da Cultura Hip Hop de Esteio, assim como o Coletivo Hip Hop Linha do Trem, traz, no seu quadro de agentes, militantes, ativistas, artistas e diversos produtores culturais que ao longo dos anos e décadas, têm proporcionado importantes debates dentro das periferias das cidades ligadas pelo trem, de modo que o enfrentamento ao racismo, homofobia, machismo, fascismo, xenofobia, dentro e fora da cultura hip hop, estava posto em prática nas músicas, pinturas, passos de dança e mixagens, fazendo com que o todo estivesse ainda mais preparado para assumir essa missão junto ao projeto ElesPorElas.

Confira a seguir o videoclipe Guerreiras de Dandara, gravado na Casa da Cultura Hip Hop de Esteio, lançado em 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e exibido no ato de lançamento da campanha ‘Fim da linha para a violência contra a mulher’.

Composição: Preconceito Zero

Intérpretes: Grazi Pires (50 tons de Pretas), Lisy, Malu Viana (Flor do Gueto) e Renata Carvalho

Estúdio: Evolution

Audiovisual: Ganjarec

Imagens: Casa do Hip Hop Esteio

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