Entrevista: Liana Timm e seu afeto por Porto Alegre

Desde 10 de julho, os monitores do Canal Você, em trens e estações, exibem a exposição intinerante Cidade do Meu Olhar, assinada pela artista Liana Timm. O trabalho de Liana é divulgado também nos perfis da Trensurb nas redes sociais, incluindo o videoarte completo no YouTube. A peça destaca fragmentos da série Cidade do Meu Olhar, que reúne cerca de 300 obras criadas pela artista em diversos momentos, buscando sempre pensar a cidade de Porto Alegre através de sua história e contemporaneidade. Iniciada em 1986, a série segue em progresso, acrescentando o que a urbanidade oferece de tempos em tempos. Cidade do Meu Olhar segue em exibição nos monitores do metrô até 31 de agosto.

Artista multimídia, arquiteta, poeta e designer, Liana Timm nasceu em Serafina Corrêa, no interior do estado, mas adotou a capital gaúcha, da qual fez uma inspiração para suas obras. Liana tem mais de 40 livros publicados, cerca de 70 exposições individuais e participou de mais de 100 coletivas, recebendo diversos prêmios e, em 2008, o título de Cidadã Honorária de Porto Alegre, da Câmara Municipal. Dirige a Território das Artes Editora, especializada em artes visuais, literatura e ciências humanas. Foi uma das participantes da Antologia Digital da Poesia Gaúcha, projeto da Trensurb que veicula – nos monitores de trens e estações, além das redes sociais – vídeos de poetas declamando suas poesias.

Confira a seguir a entrevista que fizemos com ela a respeito de Cidade do Meu Olhar, de sua relação com Porto Alegre e sua trajetória como artista multimídia.

Como surgiu a ideia de fazer a série Cidade do Meu Olhar?

Liana Timm – Desde 1986 me dedico ao tema Cidade do Meu Olhar. Nasceu quando eu estava elaborando as obras para o livro Quintana dos 8 ao 80. Convivi com o poeta durante seis meses e tomei contato com sua poesia de forma profunda. Para criar os trabalhos da publicação tive que entender verso a verso o significado daquelas palavras e, como já apreciava a poesia de Quintana, esse novo momento me fez admirá-lo ainda mais. Após esse contato veio a vontade de ampliar minha produção sobre a cidade e a partir daí continuei a fazer obras em torno da história e da atualidade de Porto Alegre.

Como funcionou teu processo criativo para essa série?

Liana Timm – Nasci em Serafina Corrêa e aos 3 anos meus pais se mudaram para Porto Alegre. Como médico meu pai iniciou sua vida profissional no interior e depois veio para a capital, onde se estabeleceu. Moramos em vários bairros: Independência, Rio Branco, Petrópolis, Santana, Moinhos de Vento, Cidade Baixa e Cristal. Vivi intensamente cada um deles e tais vivências fizeram aumentar meu amor pela cidade. Além disso, tive oportunidades que me possibilitaram produzir textos e imagens sobre vários aspectos emblemáticos de Porto Alegre. Assim, fui gradativamente colecionando exemplares que reuni, em parte, no vídeo que criei para a Trensurb.

Como é tua relação afetiva com Porto Alegre?

Liana Timm – É muito natural que a cidade em que se vive seja motivo de afeto. Assim, Porto Alegre tem extrema importância tanto na minha trajetória artística quanto pessoal. Posso viajar para os lugares mais fascinantes, mas voltar é sempre reconfortante. Me envolvo com os problemas sociais, ambientais, culturais, artísticos e políticos de nossa cidade, pois entendo ser uma responsabilidade cidadã ser ativa no que diz respeito às melhorias que precisam ser implantadas para que todos possam ter uma vida digna e produtiva.

Como funciona teu trabalho como artista visual e multimídia?

Liana Timm – Meu trabalho nas artes visuais visita várias técnicas e materiais. Trabalho com a manualidade e a tecnologia. Com o analógico e o digital, com a história e a contemporaneidade. Misturo linguagens e me aproprio do que me parece necessário no momento. A liberdade de escolha e pensamento são prioridades para todo artista.

Como foi tua trajetória artística e profissional?

Liana Timm – Este ano faço 52 anos de dedicação às artes visuais e 35 anos de poesia. Muitas realizações e histórias para compartilhar. Um caminho trilhado com muita dedicação, perseverança e paciência. E, acima de tudo, muita paixão. A arte para mim é como o oxigênio: fundamental e insubstituível. Uma maneira de ser.

O que significa pra ti ter a série Cidade do Meu Olhar exposta de forma itinerante nos trens?

Liana Timm – O que mais aprecio é fazer circular a minha produção artística em ambientes fora do circuito convencional da arte. Tenho muita satisfação em estar presente nas estações, nos vagões e nas redes sociais da Trensurb. Que todos possam conviver com a arte e entender a sua importância no nosso dia a dia. A arte transfigura o óbvio e possibilita novos olhares sobre a vida.




Sombras de Agosto, livro de suspense ambientado na Trensurb, é lançado

Ambientado nas dependências da Trensurb, Sombras de Agosto é o primeiro romance policial do escritor Leandro Haach, lançado no início do ano, e conta a história de um investigador no encalço de um assassino em série que comete seus crimes no Centro de Porto Alegre. Segundo Leandro, foram quatro anos de estudos para conseguir desenvolver o livro, entre pesquisas na área psicanalítica e policial, buscando entender como funciona a mente de um assassino e de um investigador.

Leonardo Werther é o protagonista da obra: um delegado de 50 anos com um passado cheio de traumas. A sua rotina é pegar o trem todos os dias de Novo Hamburgo até a Estação Mercado. Assim, a Trensurb se torna uma peça importante para a história, conectando personagens e trazendo a noção de mudança e movimento entre passado e futuro. O enredo conta com muito suspense, drama e reviravoltas, abordando ainda temas complexos, como o abandono. Tudo se passa em uma Porto Alegre fria e chuvosa, com cenários conhecidos dos gaúchos.

Natural de Porto Alegre, Leandro Haach é formado em Letras pela Unisinos. Possui dois livros publicados pela editora BesouroBox: Na direção das setas amarelas e Sombras de Agosto. Ele nos contou um pouco de suas inspirações e o porquê de ter escolhido a Trensurb como uma peça importante para a trama de seu mais recente livro.

Tu escreves há quanto tempo?

Leandro Haach – Estudei Letras e, portanto, sempre gostei de ler e escrever. Mas, de uns tempos pra cá, há cerca de uns três ou quatro anos, depois que lancei meu primeiro livro sobre a peregrinação que fiz no Caminho de Santiago de Compostela, resolvi que já era tempo de materializar o sonho de escrever as minhas próprias histórias.

Este é teu primeiro romance policial. O que te levou a escrever este gênero?

Leandro Haach – Sou apaixonado por narrativas policiais. Embora muitas pessoas subestimem o gênero como subliteratura, eu penso que as histórias de detetive são extremamente universais por colocarem temas como amor e morte no centro das tramas. Além disso, narrativas policiais podem ser uma excelente ferramenta para atrair novos leitores, para incutir neles o gosto pela leitura. Talvez as escolas deveriam explorar mais isso.

Tu te identificas mais com o protagonista ou com o vilão da história?

Leandro Haach – Acho que nossa tendência é sempre acreditar que representamos o bem, o herói da história, portanto é lá que estará a identidade daquilo que buscamos ser. Mas, se pararmos para pensar, entenderemos que evitamos a todo custo olhar para o nosso lado sombrio, todos somos dia e noite. Isso não quer dizer que iremos sair por aí assassinando alguém, contudo a humanidade está aí para provar que é capaz de realizar grandes gestos de altruísmo e lamentavelmente crimes atrozes.

Quais foram os desafios que tu encontraste para escrever esta história?

Leandro Haach – Primeiramente, foi um pouco complicado escrever sobre o universo da polícia. Embora tenha lido e recebido ajuda de um amigo, é difícil construir uma história quando você não habita aquele meio policial. Mas o maior desafio foi escrever sobre o tema do abandono, bem presente na trama do livro.

Por que escolher a Trensurb como um cenário importante para a trama?

Leandro Haach – Sou super fã da nossa Trensurb. Tive o privilégio de andar gratuitamente no metrô no dia da inauguração em 1985, guardo uma ótima lembrança. Além disso, cada vez que entro no trem fico admirando as tantas e tantas pessoas que por lá circulam diariamente, com suas angústias, alegrias, mas, na maioria das vezes, indo à luta imbuídas de sonhos. Tem um livro chamado O Tapete do Rei Salomão [de Barbara Vine], cuja trama está intimamente relacionada com a história das linhas de metrô de Londres. Então pensei que devemos exaltar o que é nosso. A própria simbiose formada entre o Museu do Trem e a Estação São Leopoldo representa uma simbiose que liga passado e futuro, preservados em um mesmo espaço geográfico. Enfim, a Trensurb incorporou-se à alma urbana gaúcha e tem muita história para contar.