Leituras a Bordo: Cristina Macedo fala sobre Lila Ripoll e Lara de Lemos

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb desenvolve o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Encerrando a Antologia, serão lançados vídeos de poemas de Lila Ripoll e Lara de Lemos declamados por Cristina Macedo. Clique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Em sua segunda fase, intitulada Leituras a Bordo, a Antologia destaca poetas ligados ao regionalismo ou que foram marco na poesia sul-rio-grandense, declamados por seus pares. Desde outubro de 2020, o projeto tem promovido a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Nascida em Santa Maria, escritora, poeta, tradutora, graduada em Letras pela UFSM e mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRGS, Cristina Macedo também é membro da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul. Em 2015, publicou seu livro solo de poesia do arrebatamento. Anteriormente, participou da fase inicial da Antologia Digital, quando declamou quatro de seus poemas. Agora, voltamos a entrevistá-la para falar sobre a vida e a obra dessas poetas gaúchas marcantes, Lila Ripoll e Lara de Lemos.

A política influenciou muito a poesia de Lara de Lemos e Lila Ripoll?

Cristina – Sim, muito. As duas poetas foram participantes ativas da política nacional, sendo que Lila foi, inclusive, militante do Partido Comunista Brasileiro. A decisão de filiar-se ao PCB veio depois de seu primo ter sido assassinado, em 1934, por razões políticas, o que fez com que a poeta se vinculasse mais fortemente às lutas e causas sociais.

Lara não se integrou a nenhum partido político, mas lutou durante toda sua vida por justiça social. Como jornalista que era, além de poeta e tradutora, acabou sendo presa pelo regime militar, na década de 1970, e teve que interromper sua carreira jornalística: escreveu, juntamente com Paulo Cesar Pereio, o Hino da Legalidade. O movimento defendia a posse de João Goulart na presidência do Brasil, depois da renúncia de Jânio Quadros.

Lila Ripoll foi igualmente presa pelo regime militar, em 1964. Ficou pouco tempo encarcerada por estar muito doente.

A luta política influenciou a poesia das duas poetas: Lila tem um livro, cujo título é Primeiro de Maio, onde escreve um poema testemunho do massacre que aconteceu no Dia do Trabalhador, em Rio Grande, quando a polícia metralhou integrantes da parada cívica.

Lara escreveu, por exemplo, Itinerário do Medo, em 1997, cujo tema é seu encarceramento, duas vezes, pelo regime militar bem como a prisão de seus dois filhos, sendo que o mais velho permaneceu detido por longo tempo.

Enfim, a política e o social estão presentes em suas obras, mas, como excelentes poetas que foram, souberam não ser panfletárias, a política está nas entrelinhas, com poemas repletos de metáforas, cuidado formal e rica expressão imagética.

Até que ponto um poeta lírico mescla com seu lirismo um poema social?

Cristina – Sou daquelas que acreditam que o lirismo aprimora e leva mais longe o poema social, isto é, se o poema é excessivamente político/social, ele perde em poesia, torna-se meramente panfletário, como eu falava acima. Tanto Lila quanto Lara, enquanto falam das injustiças sociais, contemplam a tristeza, a inquietação, o medo, porém transpostos para o poético. Ambas costuram, em seus versos, a objetividade do social com sua subjetividade lírica.

Os traços biográficos de Lila Ripoll e de Lara de Lemos influenciaram nos seus poemas?

Cristina – Certamente e creio que nenhum poeta ou escritor possa fugir disso. Observa-se essa influência na obra das poetas, desde as memórias da infância no interior, caso de Lila, até e principalmente as lutas que travaram pela justiça social durante suas vidas. Estão contemplados em seus poemas a geografia das paisagens, os seres, os sentimentos da mulher e sua dor, as memórias de insegurança e medo bem como de alegrias e amores.

Toda essa temática, no entanto, nos é apresentada através de uma poesia densa, sem artifícios, perpassada pela melancolia e transfigurada em lirismo.

Qual é o legado de ambas, para os novos(as) poetas desta última geração?

Cristina – Lila Ripoll e Lara de Lemos foram – e são – um marco na poesia sul-rio-grandense. Ambas foram diversas vezes premiadas: Lila recebeu, entre outros, o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (1941) e o Prêmio Pablo Neruda da Paz, em Praga (1951) e Lara, também entre outros, recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Menotti del Picchia (1990) e o Prêmio Açorianos de Poesia (1995). Em 1968, já havia recebido o Prêmio Jorge de Lima, do Instituto Nacional do Livro.

Além disso, tiveram participação muito ativa nos meios literários nacionais, tendo Lila participado da “Geração de 30”, onde convivia com Dyonélio Machado, Mario Quintana e Cyro Martins, para citar alguns nomes.

Lila e Lara são poetas inescapáveis para os novos poetas, especialmente para as novas poetas mulheres, porque em um tempo em que muito se fala de empoderamento feminino, é importante assinalar que elas já tinham consciência das mazelas femininas e sobre elas escreviam desde 1938, no caso de Lila, e 1957, no caso de Lara. Lembro de Lara dizer, em uma entrevista, que sabia bordar, costurar, cozinhar, mas que as atividades domésticas eram insuficientes, ela queria mais, ela queria escrever poesia. E conseguiu.

Enfim, bem mais importante do que as questões de gênero, é o talento que as poetas possuíam para fazer versos que, partindo de vivências pessoais, transformaram em poesia universal.

A influência de Cecília Meireles está mais presente na obra de Lila ou Lara?

Cristina – Prefiro responder transcrevendo um poema de cada uma das três poetas, em que o mar é pano de fundo para a dor, a tristeza, o naufrágio:

NAUFRÁGIO

                   Lila Ripoll

Uma sombra cobriu meu sonho,

desceu à terra, foi para o mar.

Vivo um pouco em cada barco

que naufraga silencioso,

sem chamar.

Um amor morou no meu peito,

cresceu sem medo, mas se escondeu.

Estou sempre em cada estrela,

que brilha um pouco e se apaga,

como eu.

Os meus braços estão quebrados,

sem ânsias novas para prender.

Rotas velas no mar alto,

levam sangue derramado,

sem morrer.

NO MAR IMENSO

                            Lara de Lemos

Sou nave que não chega a termo

por ter no imenso naufragado.

Perdi roteiro e velame,

perdi rumo, remo e mastro.

Quisera destino certo,

navegando em águas densas,

navegando em céu aberto,

embora sem esperanças.

O naufrágio foi meu fado,

que roubou força e destino,

que destruiu meu passado

deixando só desatinos.

Agora navego a esmo,

como uma nave perdida.

Não sigo porque sou cego,

nem volto ao cais de partida.

BEIRA-MAR

                        Cecília Meireles

Sou moradora das areias,

de altas espumas: os navios

passam pelas minhas janelas

como o sangue nas minhas veias,

como os peixinhos nos rios…

Não têm velas e têm velas;

e o mar tem e não tem sereias;

e eu navego e estou parada,

vejo mundos e estou cega,

porque isto é mal de família,

ser de areia, de água, de ilha…

E até sem barco navega

quem para o mar foi fadada.

Deus te proteja, Cecília,

que tudo é mar – e mais nada.

Antologia Digital da Poesia Gaúcha: Eliane Marques

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de Eliane Marques – todos eles sem título –, declamados pela própria autora. Clique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Nessa primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Poeta, ensaísta, psicanalista e tradutora, Eliane Marques publicou os poemários o poço das marianas (Escola de Poesia, 2021), e se alguém o pano (Prêmio Açorianos na categoria Poema, Escola de Poesia, 2016), Relicário (Grupo Cero, 2009) e as traduções Pregão de Marimorena, da poeta afro-uruguaia Virginia Brindis de Salas (Figura de Linguagem, 2021) e O trágico em Psicanálise, da psicanalista argentina Marcela Villavella (Psicolibro, 2012). Mantém uma coluna sobre cultura e sociedade no jornal Zero Hora. Tem poemas publicados nas revistas Cult e Piauí, entre outras importantes publicações do Brasil. Coordena a editora Escola de Poesia e o projeto Orisun oro que visa à tradução e à publicação de livros de mulheres poetas afro-latino-caribenhas no Brasil.  É docente na Après Coup Porto Alegre Psicanálise e Poesia, onde coedita a revista de psicanálise e cultura Anna O. Trabalhou como roteirista, produtora executiva e diretora do documentário Wole Soyinka – A forja de Ogum, entre outros trabalhos artísticos. Nascida em Sant’Ana do Livramento, na fronteira entre Brasil e Uruguai, graduou-se em Pedagogia e Direito, é mestre em Direito Público, especialista em “Constituição, Política e Economia”, além de trabalhar como Auditora Pública Externa do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Confira a seguir a entrevista que fizemos com ela a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura e processo criativo.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

Eliane Marques – Quanto à forma, o projeto é inovador e contemporâneo, respondendo às demandas deste tempo com os instrumentais tecnológicos que ele disponibiliza.  Sinto-me honrada de integrá-lo junto com outras e outros poetas.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

Eliane Marques – Comecei a escrever na idade adulta. Na infância, fiz apenas versinhos, como muitas crianças fazem. Publiquei os poemários Relicário (2009), e se alguém o pano (Prêmio Açorianos de Literatura, 2016) e o poço das marianas (2021). Como tradutora publiquei Pregão de Marimorena, da poeta afro-uruguaia Virginia Brindis de Salas, e Cabeças de Ifé, da poeta afro-cubana Georgina Herrera (no prelo), esse último no âmbito do projeto Orisun oro.

O que motivou a escolha dos poemas para a Antologia? O que eles significam para ti?

Eliane Marques – Escolhi poemas dos meus dois últimos livros que coubessem na proposta da Antologia. Prefiro que as leitoras/leitores digam do significado dos poemas para cada uma/um. Como poeta, prefiro me mantar afastada de qualquer autoridade sobre os poemas.

Como é teu processo criativo?

Eliane Marques – Os meus poemas são criados como se fossem algo concreto, eles vão se montando ou desmontando conforme eu os escrevo. Não escrevo a partir de ideias ou imagens ou sons pré-concebidos e nem objetivo deixar qualquer mensagem.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

Eliane Marques – Não trabalho com temas pré-definidos, os temas vão se apresentando no ato de escrever.

Antologia Digital da Poesia Gaúcha: Romar Beling

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de Romar Beling, declamados pelo próprio autor. São eles: Quem trago, É tempo de seara e Ode ao sempreClique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Em sua primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Natural de Linha dos Pomeranos, na região serrana de Agudo, Romar Rudolfo Beling nasceu em 24 de julho de 1969. Desde 1988, está radicado em Santa Cruz do Sul, onde há cerca de 30 anos atua no jornalismo junto à Gazeta Grupo de Comunicações. Graduado em Letras, é especialista em Literatura e mestre em Letras – Leitura e Cognição. Professor, editor, escritor, cronista e poeta, foi editor da Editora Gazeta e atualmente é diretor de Conteúdo Multimídia da Gazeta Grupo de Comunicações. Publicou os livros: A história de muita gente, livro alusivo aos 50 anos da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e à presença histórica do tabaco na história mundial; Terra de bravos: imigração alemã no Brasil 180 anos, de 2007; Noites em chamas, sua estreia em livro de poesia, em 2011; Uma poética da memória: o holocausto na obra de Jorge Semprum, ensaio, publicado em 2011; Trinta e seis: fotos com poesia, livro que mescla poemas com fotos do fotógrafo Lula Helfer e que teve ainda poemas de Mauro Ulrich e Daniela Damaris Neu, publicado em 2013; as antologias Nem te conto I, II e II, que organizou em conjunto com o professor Rudinei Kopp, entre 2012 e 2014; e A felicidade de estar vivo, segundo livro de poesia, em 2017. Além disso, tem artigos e ensaios publicados em revistas e livros, além de ter colaborado com poemas e crônicas em coletâneas e antologias.

Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados em sua obra.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

Romar Beling – Entendo que essa foi uma iniciativa muito feliz, tanto pela idealização da forma de divulgação de poesia nesse ambiente específico quanto pela parceria estabelecida. Nesse período tão marcado pela pandemia, e que inviabilizou muitas das atividades que proporcionariam mais exposição, com ações presenciais, projetos como o da Antologia Digital da Poesia Gaúcha permitem que um público mais amplo e eclético tenha contato com essa forma de expressão que é a poesia. E o fato de essa ação reunir nomes já consagrados com outros, talvez menos conhecidos da população, é igualmente uma forma de congraçamento e de aproximação entre gerações e diferentes vozes autorais. Uma iniciativa muito louvável, que, torço, possa vir a inspirar outros organismos, e me sinto honrado e lisonjeado por dela fazer parte.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

Romar Beling – Escrevo poesia desde muito jovem, num primeiro momento sem maior pretensão ou sem imaginar que talvez viesse a fazer dessa uma forma pessoal de expressão artística ou cultural. Na verdade, o motivador veio do meu gosto, desde a infância, por leituras variadas e de qualidade, de jornais, revistas, prosa e poesia. Quando ingressei no curso de Letras, na Unisc, isso em 1988, firmou-se para mim a determinação de que a leitura e a produção de textos seriam meu campo de atuação. Formado em Letras, tornei-me jornalista, atividade na qual permaneci ao longo dos últimos 33 anos. Segui escrevendo poesia, e publiquei dois livros nesse gênero, Noites em chamas, em 2011, e A felicidade de estar vivo, em 2017. Igualmente me dedico a crônica e ensaio, embora hoje tenha a produção jornalística como minha ocupação diária. E costumo me definir, mesmo na condição de jornalista ou de poeta, essencialmente como leitor. Leio de tudo, sobre tudo, buscando manter máximo e constante olhar sobre o panorama da literatura brasileira e mundial, e em poesia li praticamente tudo e todos que seria relevante a um poeta digno desse nome ler, dos nacionais e dos estrangeiros, de todas as épocas e voltados a todas as correntes de fazer poesia.

O que motivou a escolha do poema Quem trago para a Antologia? O que ele significa para ti?

Romar Beling – No Quem trago busco brincar, por assim dizer, com uma construção visual do poema, da distribuição dos versos na página, em variadas extensões, e explorando o ritmo, a sonoridade, que vem tanto das rimas quanto da própria extensão, com paralelismo, dos versos. Assim se tem uma primeira parte, a I, com duas estrofes com a mesma construção de quatro versos e as rimas entre uma e outra estrofe; depois uma segunda parte, a II, com uma espécie de contraponto a essa primeira; para então arrematar com a parte III novamente com a mesma disposição de duas estrofes de quatro versos cada, e com as mesmas rimas entre as duas estrofes a exemplo do que ocorrera na parte I. Há um diálogo visual muito claro, consciente e proposital entre as partes I e II, como um começo e um fim, mediado por um fiel da balança da parte II. O poema fala claramente de amor, onde um indivíduo (o eu poético, no qual o leitor se projetará), reconhecendo que ele será sempre o menino que um dia foi, mas é um homem que precisa do abraço, do aconchego, como sina definitiva para a plena realização do viver, para a felicidade. É um poema de que gosto muito, pela simplicidade e por ser despojado, e creio que pode soar bem a homens, mulheres, pessoas de todas as idades.

E quanto a É tempo de seara?

Romar Beling – A “seara” do título, com o significado de colheita, remete ao momento na vida em que, depois de ter plantado e cuidado, a pessoa “colhe”, desfruta do resultado de tudo aquilo que antes motivou seu esforço, seu empenho. É uma vez mais um poema em cujo intertexto está a concretização de um amor, ou o resultado de algo ao qual o eu lírico se dedicou, o que ele almejava. Há novamente a rima entre uma estrofe e outra, e novamente com versos curtos, brincando com o ritmo e a sonoridade. O poema remete a uma colheita que é realizada a quatro mãos, no relacionamento marcado pelo amor e pelo companheirismo, “no reino que faço / contigo”, como sinaliza a última estrofe. Penso que o amor, o afeto, a sabedoria, na relação humana, são os temas clássicos, essenciais e definitivos da poesia, pela qual e com a qual abrem corações e mentes.

E o poema Ode ao sempre?

Romar Beling – Novamente, a exemplo dos outros dois poemas, Ode ao sempre é essencialmente uma definição para o sentimento, para o amor, numa celebração da importância da pessoa amada. Nesse caso, quando o eu lírico “se perde” na outra pessoa ou com a outra pessoa, ele se acha. Aqui se salienta muito a alteridade, tão evidente no amor pleno, em que um se conhece e se reconhece a partir do outro, fundindo e confundindo mentes, desejos, sonhos, planos e aspirações. Penso que o leitor também se identificará muito rapidamente com a essência e o significado do poema a partir da leveza, da sonoridade e da simbologia empregadas.

Como é teu processo criativo?

Romar Beling – Embora o poema, como visualmente se pode verificar, implique em uma construção muito rigorosa, exata, na extensão dos versos, na disposição das rimas, dentro de cada estrofe ou entre uma e outra, o que sugere um exercício cerebral, de escolhas, os meus poemas são muito intuitivos também. Normalmente há uma primeira imagem e a intenção de dizer, traduzir, sugerir um efeito, um significado, e assim o poema se constrói, se veste. Quase sempre meus poemas apresentam versos curtos ou médios, que apresentam um ritmo ou uma sonoridade muito peculiar. Prezo e persigo essa construção, esse efeito visual na página, que, em algumas ocasiões, tem quase um significado “visual” em paralelo ao do conteúdo linguístico propriamente dito. Claro, quem ouve o poema sendo lido não tem a imediata noção dessa disposição gráfica, mas ela para mim é importante.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

Romar Beling – Lido naturalmente, como talvez ocorra com quase todos os poetas e escritores, com os temas que falam muito alto à minha formação, a minha origem, as experiências ao longo da trajetória de formação, a memória de situações vivenciadas. Mas também gosto de promover intertexto com as leituras feitas, de maneira que muitas vezes leituras, viagens e outras experiências estéticas (música, cinema, artes plásticas, fotografia) são incorporadas. O poema, para mim, é uma via de expressão do íntimo, dos sentimentos, e eventualmente até mesmo a fixação, no papel, de uma filosofia, de uma concepção filosófica da vida, do mundo. Não consigo compreender uma vida plenamente vivida sem que ela inclua ou envolva a leitura constante de poesia, diante do exercício de reflexão e de expansão da consciência que só as metáforas permitem alcançar.

Entrevista: Liana Timm e seu afeto por Porto Alegre

Desde 10 de julho, os monitores do Canal Você, em trens e estações, exibem a exposição intinerante Cidade do Meu Olhar, assinada pela artista Liana Timm. O trabalho de Liana é divulgado também nos perfis da Trensurb nas redes sociais, incluindo o videoarte completo no YouTube. A peça destaca fragmentos da série Cidade do Meu Olhar, que reúne cerca de 300 obras criadas pela artista em diversos momentos, buscando sempre pensar a cidade de Porto Alegre através de sua história e contemporaneidade. Iniciada em 1986, a série segue em progresso, acrescentando o que a urbanidade oferece de tempos em tempos. Cidade do Meu Olhar segue em exibição nos monitores do metrô até 31 de agosto.

Artista multimídia, arquiteta, poeta e designer, Liana Timm nasceu em Serafina Corrêa, no interior do estado, mas adotou a capital gaúcha, da qual fez uma inspiração para suas obras. Liana tem mais de 40 livros publicados, cerca de 70 exposições individuais e participou de mais de 100 coletivas, recebendo diversos prêmios e, em 2008, o título de Cidadã Honorária de Porto Alegre, da Câmara Municipal. Dirige a Território das Artes Editora, especializada em artes visuais, literatura e ciências humanas. Foi uma das participantes da Antologia Digital da Poesia Gaúcha, projeto da Trensurb que veicula – nos monitores de trens e estações, além das redes sociais – vídeos de poetas declamando suas poesias.

Confira a seguir a entrevista que fizemos com ela a respeito de Cidade do Meu Olhar, de sua relação com Porto Alegre e sua trajetória como artista multimídia.

Como surgiu a ideia de fazer a série Cidade do Meu Olhar?

Liana Timm – Desde 1986 me dedico ao tema Cidade do Meu Olhar. Nasceu quando eu estava elaborando as obras para o livro Quintana dos 8 ao 80. Convivi com o poeta durante seis meses e tomei contato com sua poesia de forma profunda. Para criar os trabalhos da publicação tive que entender verso a verso o significado daquelas palavras e, como já apreciava a poesia de Quintana, esse novo momento me fez admirá-lo ainda mais. Após esse contato veio a vontade de ampliar minha produção sobre a cidade e a partir daí continuei a fazer obras em torno da história e da atualidade de Porto Alegre.

Como funcionou teu processo criativo para essa série?

Liana Timm – Nasci em Serafina Corrêa e aos 3 anos meus pais se mudaram para Porto Alegre. Como médico meu pai iniciou sua vida profissional no interior e depois veio para a capital, onde se estabeleceu. Moramos em vários bairros: Independência, Rio Branco, Petrópolis, Santana, Moinhos de Vento, Cidade Baixa e Cristal. Vivi intensamente cada um deles e tais vivências fizeram aumentar meu amor pela cidade. Além disso, tive oportunidades que me possibilitaram produzir textos e imagens sobre vários aspectos emblemáticos de Porto Alegre. Assim, fui gradativamente colecionando exemplares que reuni, em parte, no vídeo que criei para a Trensurb.

Como é tua relação afetiva com Porto Alegre?

Liana Timm – É muito natural que a cidade em que se vive seja motivo de afeto. Assim, Porto Alegre tem extrema importância tanto na minha trajetória artística quanto pessoal. Posso viajar para os lugares mais fascinantes, mas voltar é sempre reconfortante. Me envolvo com os problemas sociais, ambientais, culturais, artísticos e políticos de nossa cidade, pois entendo ser uma responsabilidade cidadã ser ativa no que diz respeito às melhorias que precisam ser implantadas para que todos possam ter uma vida digna e produtiva.

Como funciona teu trabalho como artista visual e multimídia?

Liana Timm – Meu trabalho nas artes visuais visita várias técnicas e materiais. Trabalho com a manualidade e a tecnologia. Com o analógico e o digital, com a história e a contemporaneidade. Misturo linguagens e me aproprio do que me parece necessário no momento. A liberdade de escolha e pensamento são prioridades para todo artista.

Como foi tua trajetória artística e profissional?

Liana Timm – Este ano faço 52 anos de dedicação às artes visuais e 35 anos de poesia. Muitas realizações e histórias para compartilhar. Um caminho trilhado com muita dedicação, perseverança e paciência. E, acima de tudo, muita paixão. A arte para mim é como o oxigênio: fundamental e insubstituível. Uma maneira de ser.

O que significa pra ti ter a série Cidade do Meu Olhar exposta de forma itinerante nos trens?

Liana Timm – O que mais aprecio é fazer circular a minha produção artística em ambientes fora do circuito convencional da arte. Tenho muita satisfação em estar presente nas estações, nos vagões e nas redes sociais da Trensurb. Que todos possam conviver com a arte e entender a sua importância no nosso dia a dia. A arte transfigura o óbvio e possibilita novos olhares sobre a vida.




Antologia Digital da Poesia Gaúcha: José Nedel

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de José Nedel, declamados pelo próprio autor. São eles: Reinvenção da roda, Safras medianas e Onça bebe águaClique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Nessa primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Natural de Itapiranga, em Santa Catarina, José Nedel mudou-se ainda jovem para o Rio Grande do Sul, onde estudou e trabalhou por quase toda sua vida, na capital e em diversos municípios do interior. Hoje, reside em Porto Alegre. Graduado em Letras Clássicas, Filosofia e Direito, é mestre e doutor em Filosofia. Juiz de direito e professor aposentado, é autor de muitos artigos em jornais, revistas e obras de autoria coletiva, bem como de duas dezenas de livros individuais, entre os quais estes puramente literários: A curvatura da razão: poemas (2009); A vez do verso: sonetos (2011); A vez do verso: quadras (2012); Última floresta: sonetos (2015); Quadras em metro (2016); Vida breve: sonetos (2018). Ocupa a cadeira 34 da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL). Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

José Nedel – Trata-se de uma iniciativa maravilhosa do escritor e poeta Élvio Vargas, meu colega na ARL [assessor da Trensurb e organizador do projeto]. A iniciativa propiciará diariamente a milhares de usuários do trem contato com poemas, a fina flor da literatura. Representará para eles, que se encontram, muitas vezes, em meio à correria imposta pelos afazeres da vida, um valioso momento de emoção estética e reflexão. Sinto-me honrado pelo convite para participar do projeto. Um poema bem executado é a criação de um tipo de beleza. O belo é uma forma de bem. Afinal, o que importa na vida é fazer o bem.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

José Nedel – Escrevia desde os meus tempos do ginásio, quando tinha 14 ou 15 anos de idade. Posteriormente, revia os textos guardados, emendando alguns e descartando outros. Como professor, costumava registrar em textos as matérias que lecionava. Muitas vezes, mimeografava-os para os alunos. Retocados mais tarde, tais escritos passaram a formar a maioria dos livros que publiquei, vinte obras individuais até agora, entre elas seis de poemas, na forma de sonetos e quadras. Escrevi também muitos artigos em jornais, grande parte aproveitada na composição de meus livros.

O que motivou a escolha do poema Reinvenção da roda para a Antologia? O que ele significa para ti?

José Nedel – Escrevi este soneto, motivado por uma frase do médico e escritor Alcides Mandelli Stumpf, autor de Amigos & Medos. Em entrevista publicada no Correio do Povo, Caderno de Sábado, 26/01/2019, p. 4, ele disse: “Existe uma tendência de reinventar a roda”. A expressão não era nova para mim, mas naquele momento me causou um impacto: a instantânea percepção de que serviria como chave de ouro de um soneto. A partir disso, passei a compor-lhe o corpo, com começo, meio e fim, como deve ser de praxe. O poema incorpora um toque biográfico: a aprendizagem de que, com a idade, tendemos a ficar mais modestos nos arroubos, mais conformados com as limitações naturais e mais realistas nos projetos e empreendimentos.

E quanto a Safras medianas?

José Nedel – Escolhi este soneto para a Antologia porque é condizente com a condição humana comum a todos: a mistura de bens e males, de alegrias e sofrimentos, de vitórias e derrotas. Em geral, alcançamos média razoável dessas realidades ambivalentes e agridoces, uma espécie de safras medianas, sendo raras as ótimas, primorosas, excelentes. É da vida, da experiência de cada um.

E o poema Onça bebe água?

José Nedel – A expressão “Um dia a onça vem e bebe água” é bem conhecida. Certa vez, a Cláudia Tajes a usou em comentário acerca do Prêmio Camões concedido ao cantor, compositor e escritor Chico Buarque, em 2020. Ao ler a crônica da Cláudia, tive a intuição de que a expressão dava para o fecho de um poema, no caso, um soneto. A partir disso escrevi o texto. O poeta, como todo artista, precisa de um choque, estalo ou assombro causado por fato, circunstância, pessoa ou frase que lhe desperte a inspiração. O fazer humano nunca é ex nihilo, vale dizer, a partir do nada. Também não sai perfeito, por via de regra, na primeira tentativa. É preciso fazer e refazer, tentar sempre de novo, aperfeiçoar até que dê certo. E um dia dará, se Deus quiser. Assim se realiza o belo na arte, “aquilo que visto (ouvido, percebido, conhecido) agrada”, segundo a clássica definição de Tomás de Aquino.

Como é teu processo criativo?

José Nedel – Escritos de natureza filosófica surgem das atividades profissionais do magistério: escrevo os textos para as aulas que, reunidos e retrabalhados, formam livros. Poemas surgem a partir de assombros, choques ou intuições despertadas por imagens, coisas, pessoas, palavras ou textos sugestivos. Tudo demanda muita leitura, anotações, estudo, reflexão e prática. Bem escrever requer, primeiro que tudo, bem pensar. Meus cursos de Letras Clássicas, Filosofia e Direito valem para isso: formam um tripé que sustenta o meu fazer literário.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

José Nedel – Na área teórica, meus temas prediletos são de teoria do conhecimento. Na área prática, são temas de ética, estética e filosofia do direito. Meus textos literários sempre têm algum conteúdo filosófico, moral, espiritual ou bíblico. Por sinal, a Bíblia, o livro dos livros, é um repertório inexaurível de temas de reflexão que podem ser apropriados, de modo especial, em forma de sonetos.

Antologia Digital da Poesia Gaúcha: Mauro Ulrich

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de Mauro Ulrich, declamados pelo próprio autor. São eles: FantásticoO Velho Pubi e SábadoClique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Nessa primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

O poeta Mauro Ulrich, 56 anos, é natural de São Leopoldo e atualmente reside em Santa Cruz do Sul. Publicou, pela Editora Gazeta, os livros de poesia Cellophane Flowers (2011) e Sleeping Bag (2015). Junto com os poetas Romar Beling e Daniela Damaris, mais o fotógrafo Lula Helfer participa do livro Trinta e Seis: Fotos com Poesia. Também tem poemas publicados nas antologias Escritores do Pedrinho e Poetas do Vale, entre outras. Neste ano, foi contemplado com o Prêmio Trajetórias Culturais e prepara o lançamento de mais um livro de poemas, que vai se chamar Stupidman. É assíduo organizador de saraus e tudo o mais que envolva arte e cultura, nas mais distintas áreas da expressão. Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

Mauro Ulrich – Bem, começa que eu sempre gostei muito de ver aqueles trens da Trensurb, aqueles gigantes de ferro andando, esticando-se sobre trilhos, andando da capital para o interior, interior para a capital. Eu sempre gostei muito de andar nos trens da Trensurb. Aquelas conexões por túneis, ali no Mercado Público, na Rodoviária. Enfim, as plataformas, aquela gente toda na plataforma, as pessoas no trem, nós passando de carro pela BR-116 e apostando uma corrida imaginária com os trens da Trensurb. Eu sempre achei uma coisa muito maravilhosa, muito encantadora e sempre, pra mim, foi sinônimo de conexão com o futuro, com uma coisa meio cinematográfica. E agora fazendo essa conexão também digital, que é uma coisa moderna, de colocar a poesia gaúcha, nessa plataforma digital, escolhendo alguns dos poetas gaúchos. Me honra poder participar desse projeto, um convite que aceitei de coração aberto do meu querido amigo, poeta Élvio Vargas e estou muito feliz em poder participar, porque eu percebo que o time é de primeira categoria, são todos excelentes, grandes poetas. E estar junto com essa turma toda, num projeto da Trensurb, só empresta qualidade, só empresta seriedade a um gênero que, muitas vezes, é subjugado, inclusive, por mais incrível que possa parecer, por algumas pessoas que o praticam, né? A poesia, às vezes, é colocada num segundo plano quando, na verdade, é um dos gêneros mais importantes da literatura mundial. Muito contente em participar e tenho certeza que é um projeto que fará um grande sucesso.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

Mauro Ulrich – Bem, eu tenho a impressão que eu escrevo desde sempre ou, pelo menos, desde quando eu aprendi a ler. Garoto criado num apartamento no Centro de São Leopoldo e filho único, durante muitos anos, não tinha muitas possibilidades de outras coisas a não ser me interessar pela leitura, que era uma coisa que foi passada pra mim de pai e de mãe pra filho. No caso, porque eu sempre via principalmente a mãe, muito interessada na leitura, né? A primeira imagem que eu tenho de minha mãe é ela sentada numa poltrona, lendo um livro e o apartamento com as paredes forradas de livros. Então, isso me motivou muito nesse interesse pela leitura e, consequentemente, alguns anos depois de alfabetizado, pela palavra escrita. Eu lembro que o trampolim mais claro sobre isso foi um poema que eu publiquei, quando eu deveria ter por volta de uns onze, doze anos, numa antologia, daquelas antologias de escola. Eu estudava na Escola Estadual Pedro Schneider, o famoso Pedrinho, em São Leopoldo, e os professores de português promoviam aquelas antologias com crônicas e textos, redações, poemas, desenhos dos alunos e tal. Eu participei de uma dessas antologias. E aquilo foi uma coisa maravilhosa, porque meio que me destacou entre os demais colegas da turma, com um poema, assim, sobre uma praça lá de São Leopoldo. E aquilo foi muito legal, porque eu acabei me tornando um cara meio popular, assim, na minha turma. E, inclusive, entre as garotas também, né? Enfim, momentos. Então, eu decidi que era mais ou menos isso que eu queria pra minha vida. Eu vou escrever pra ver se eu consigo me dar bem, de uma certa forma, me tornei jornalista, né? E hoje tenho, então, três livros de poema publicados, três livros de forma oficial, porque, muito antes disso, já fazia o que se convencionou chamar a tal da poesia marginal, lá pelos anos 80, escrevendo poemas em máquina de escrever e grampeando e vendendo na universidade. Enfim, o começo se deu mais ou menos por aí.

O que motivou a escolha do poema O Velho Pubi para a Antologia, o que ele significa para ti?

Mauro Ulrich – Esse poema, O Velho Pubi, que é o primeiro que eu mando pra Antologia da Trensurb, faz parte também do meu primeiro livro, o Cellophane Flowers, de 2011  e eu escolhi ele porque, com ele, se deu uma coisa engraçada. Porque, na verdade, se dependesse de mim, ele nem estaria no primeiro livro, porque eu considerei, na época, um poema um tanto singelo, mas ele foi parar no meu primeiro livro muito por força da vontade do meu editor, o também poeta Romar Behling, que descobriu nele um certo valor que eu ainda não tinha visto. E foi tudo muito engraçado, porque esse poema, O Velho Pubi acabou se tornando um dos hits da minha produção, porque ele é um poema que, mais tarde, foi alvo de estudo no curso de Letras da Unisc, a Universidade de Santa Cruz do Sul. Ele é um poema que foi estudado pelos alunos desse curso, da universidade, é um poema que foi lido em voz alta no seminário de língua e literatura, em Rio Pardo, por um dos autores que participaram do seminário. Enfim, é um poema que se tornou muito popular e, o mais engraçado, ele é um poema que, se dependesse de mim, nem estaria no meu primeiro livro. Ele é uma uma homenagem, um tanto singela, creio eu, que eu fiz pro meu avô, o pai do meu pai.

E quanto a Fantástico?

Mauro Ulrich – Bem, como em Velho Pubi eu homenageio o pai do meu pai, o Fantástico é uma espécie de homenagem, então, ao pai de minha mãe. Ambos já são falecidos. E Fantástico é um poema mais novo. É um poema que foi feito creio que no ano passado. É um poema mais recente, é um poema inédito, ele ainda não foi publicado em nenhum dos livros, deve ir para o meu próximo livro, que está sendo preparado e fala de uma ida nossa, coisas de memória, pensando coisas de infância, adolescência e tal, uma ida nossa, da família, eu, o pai, a mãe, ao cemitério, naqueles cortejos de finados, talvez, ou num domingo qualquer, sei lá, para a mãe ir com frequência até o cemitério no interior de Canoas, ali, distrito de Nova Santa Rita, onde, então, estão enterradas algumas pessoas da família, inclusive esse meu avô, que é o protagonista desse poema. Então, o poema narra uma ida até lá, naquelas estradinhas de chão batido, de Berto Círio, interior de Canoas. E aquela coisa da mãe, a mãe que limpa o túmulo do seu pai, sempre com tanto carinho e as memórias dela, e as histórias que ela nos contava sobre ele, e um vô, também, muito amado por todos nós. Eu acho que termina com a gente retornando pra casa, claro, isso num domingo à noite, pra assistirmos ao Fantástico – O Show da Vida, fazendo alusão ao famoso programa de TV, que dá todas as noites de domingo, que também é uma espécie de fechamento do final de semana, assim, algo meio bucólico, meio deprimente, mas eu acho que é um poema bacana. As pessoas até pode, me dar um retorno pra dizer se eu coloco ele ou não no próximo livro, né? Eu acredito que sim, vamos ver.

E o poema Sábado?

Mauro Ulrich – O poema Sábado que foi a minha escolha como terceiro poema dessa série, então, pra participar da Antologia da Trensurb. É o poema que fecha o meu livro mais recente e é um poema mais longo. Talvez o poema mais longo que eu já produzi até então. Eu tenho um carinho muito especial por ele justamente porque ele significa o fechamento de um ciclo, né? Todo livro é um fechamento de um ciclo e ele tem um caráter mais de crônica. Ele é, talvez, o poema com mais cara de prosa de tudo que eu já escrevi na minha vida em termos de poesia. Ele narra um dia de sábado, um dia normal de sábado, com seus cheiros, seus sons, tudo que acontece numa manhã, no início de sábado, e ele nasceu justamente quando eu acordei e sentei na cama, coloquei os pés no chão e o poema me veio quase que como psicografado, assim, no seu inteiro e eu gosto muito dele. Eu tenho certeza que as pessoas também vão gostar dele. Nos coloca num dia de sábado, ouvindo os sons de pessoas que estão na cozinha cozinhando, o cheiro da comida, o som da voz de meu filho na sala, o barulho dos talheres e o ronco da minha barriga, o som de alguém que passa com uma motocicleta na rua, aquela pessoa que vem entregar a santa, o que é muito comum ainda no interior, aquela passagem da santinha de casa em casa, pras orações. Tudo isso num dia de sábado. Eu espero que as pessoas gostem desse meu querido poema, Sábado.

Como é teu processo criativo?

Mauro Ulrich – Meu processo criativo não tem nenhum mistério, não tem nenhum segredo, é bastante simples e, na verdade, nada de muito especial. O mais importante para que eu construa um poema é que eu esteja me sentindo bem, isso é fundamental. Eu tenho que estar me sentindo bem pra que eu escreva bem. Eu sou um poeta que, ao contrário de muitos outros, não consigo escrever bem na tristeza, não consigo escrever muito bem com algo que esteja me incomodando, mas eu escrevo melhor quando eu estou me sentindo em paz, saudável, sem dor,  sem preocupações, enfim, o que nos dias de hoje é bastante raro. Mas é assim que eu escrevo melhor. Eu escrevo, geralmente, à mão. Eu tenho vários blocos e cadernos espalhados pela casa, enfim, estou sempre catando canetas também. É pra quando vem, não sei se o correto seria dar o nome de inspiração, mas é que quando o poema vem, ele vem praticamente na sua íntegra e eu tenho meio, não preciso me isolar pra isso, eu me sento em qualquer canto da casa. Eu escrevo, principalmente, quando estou em casa e escrevo sempre à mão. E o processo é esse, eu escrevo o poema, eu reescrevo, eu guardo ele.  Eu tenho aqui uma caixa especial onde eu guardo recém-feito pra que, no outro dia, depois de passadas vinte e quatro horas, eu volte a ler esse poema. E se esse poema me diz alguma coisa, se esse poema eu considero satisfatório, ele então, sim, vai ser digitado no meu notebook, computador, e aí ele, automaticamente, já fica ali separado pra uma próxima publicação, o que quer que seja. Mas se eu vejo que o poema, numa releitura, não me diz nada e não está bem, eu simplesmente elimino. Mas o segredo é esse: eu tenho que estar me sentindo bem. Eu escrevo melhor no inverno também, é outra coisa estranha, mas no calor, no verão, com temperaturas quentes, eu não me sinto muito bem e, com isso, eu não escrevo nada bem. Agora, no inverno, eu me sinto maravilhosamente bem. E eu acho que a poesia, ela flui melhor nessa estação do ano. Eu acho muito legal criar no inverno, eu fico esperando o inverno chegar pra que eu possa me tornar um cara mais criativo.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

Mauro Ulrich – Na verdade, eu não trabalho com uma temática específica. Sou um poeta. Já fiz poemas de cunho social, poemas românticos e tal. Eu acho que eu transito um pouco por cada uma dessas coisas e o que mais me seduz são aqueles pequenos acontecimentos do cotidiano que às vezes passam desapercebidos pela maioria das pessoas. Eu gosto muito daquela definição clássica e que se tornou chavão, que é uma definição que eu acho maravilhosa, de Ferreira Goulart, quando ele diz que o poema dele nasce do espanto, né? Do espanto frente as coisas da vida. Eu também me espanto com a mosca que passa, com um chapéu pendurado no cabide, com uma toalha molhada em cima da cama e tento transformar essas pequenas coisas do nosso cotidiano em algo belo, algo agradável aos olhos e aos ouvidos de quem lê a poesia. Eu acho que a poesia está contida em tudo, basta você ter olhos, olhos sensíveis pra saber traduzir e transformar isso em literatura. E nós, aqui no Rio Grande do Sul, temos grandes poetas que fazem isso com uma destreza fenomenal e eu muito me orgulho de ser amigo de um deles, Élvio Vargas, que eu considero hoje, nessa coisa da temática do cotidiano, um cidadão supremo, absoluto. Gostaria de um dia chegar aos pés na construção de um poema. Muito me inspiro nas coisas que ele escreve e, enfim, acho um excelente poeta. Mas a minha poesia nasce das coisas do dia a dia, da rotina, do cotidiano. É um trem que passa sobre os trilhos, uma pessoa que chora lendo um livro, no trem, uma criança que brinca no corredor do trem. A poesia anda sobre os trilhos, ela está contida no interior de cada trem da Trensurb também e eu amo tudo isso.

Muito obrigado pela oportunidade de poder participar desse projeto que eu já considero maravilhoso e contem comigo sempre, que eu estarei sempre à disposição da Trensurb. Um grande abraço a todos.