Bebeto Alves e a Arqueologia do Presente

Uma nova exposição já está em cartaz na Galeria Mario Quintana, na Estação Mercado da Trensurb. A mostra é parte do projeto O Voo da Pedra (Arqueologia do Presente), do músico, fotógrafo e artista visual Bebeto Alves. O trabalho, fundamentalmente experimental, tem participação e curadoria do também artista visual Antônio Augusto Bueno e permanece na Galeria até o fim de agosto. A exposição principal está em cartaz no Aberto Caminho de Artes até 1º de julho. A partir de 9 de julho, estará no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.

A Galeria Mario Quintana recebe uma das obras que fazem parte do projeto, acompanhada de um poema. No dia 18 de junho, às 14h, o artista e curador Antônio Bueno realizará uma interferência gráfica na peça, promovendo um diálogo do olhar de um artista sobre a obra de outro e transformando-a num trabalho verdadeiramente a quatro mãos.

O Voo da Pedra surgiu “da observação de um material de uma civilização que existiu no litoral norte de Santa Catarina há quase dez mil anos”, conforme afirma Bebeto Alves. “Eu encontrei uma pessoa que me indicou umas pedras onde existiam marcas desse pessoal e que, ali no litoral, nas praias, eles chamam de ‘pedras das dedadas’ porque elas possuem marcas profundas e parece que eles passaram os dedos nelas”, relata.

O material observado era um trabalho do pesquisador Keler Lucas, que descobriu que o povo que existia ali tinha, além das pedras que serviam de amoladores para suas ferramentas, observatórios astronômicos, rituais religiosos e diversos elementos que revelavam um conhecimento científico e uma cultura própria. “A partir daquele momento, eu comecei a observar que, em qualquer momento que tivéssemos na existência do planeta e da vida humana, estávamos deixando resquícios do que significa a nossa civilização”, afirma Bebeto. “Eu comecei a observar os vestígios que deixamos hoje no presente, como vivemos a nossa própria pré-história e como essa pré-história está contida de passado, mas também de futuro e o futuro está cheio de passado”, completa o artista. Ele realizou então uma associação ao longo do tempo e começou também a registrar os materiais que são descartados por nós, mas que também são marcas da sociedade, como carcaças de celular e circuitos eletrônicos, que contarão a história das ferramentas que a nossa população utiliza neste período. Para Bebeto, “essa é a história do Voo da Pedra, a arqueologia do presente”.

Os pássaros representados na obra exposta na Galeria Mario Quintana fazem parte do ambiente onde as descobertas foram feitas. São pássaros marítimos do litoral norte catarinense, que ilustram e ambientam a proposta da exposição com seu voo, e que presenciaram e ainda presenciam a passagem do tempo, além de interagirem com o cenário em si. “Foi isso que trouxemos aqui para a estação, para a Galeria Mario Quintana: a possibilidade das pessoas se relacionarem com este ir e vir dos pássaros, que também se relaciona com o movimento das pessoas aqui na passagem, que estão indo e vindo”, diz Bebeto. Dentro da ilustração dos pássaros, o artista representou o habitat deles, com imagens do mar, das pedras, da costa e do céu.

O trabalho de Bebeto está passando por vários ambientes na tentativa de trazer uma provocação às pessoas, para que tirem um tempo do seu dia para contemplar as obras. “Está sendo quase uma exposição itinerante, porque tem um pedaço dela em um lugar, outro pedaço em outro lugar e isso tem sido uma provocação para nós”. Segundo o artista, “o curador da exposição diz que, na verdade, nós estamos fazendo um caminho e que esse experimento nos proporciona descobrir muitas outras coisas”. Os artistas criaram um universo muito grande e nunca param de criar, eles estão mexendo com a estética e propondo materiais, impressões e formatos diferentes, indo além de apenas um quadro na parede. “Esse trabalho abriu um leque muito diferente, ele possibilitou estar sempre criando a partir dele”, declara Bebeto.

A trajetória nas artes visuais

A primeira exposição realizada por Bebeto foi em 2009: a mostra coletiva Todos os Santos, nas galerias Modernidade, em Novo Hamburgo, e Liana Brandão, em São Leopoldo. Foi um amigo, o artista plástico Rogério Severo, que o incentivou a participar. No entanto, o artista afirma que, bem antes disso, já estava próximo das artes visuais: “Eu acho que a minha geração sempre esteve junto com isso, desde que me conheço por gente eu convivi com artistas visuais, com artistas plásticos e sempre estive junto disso, provocando também alguma coisa e me provocando dentro disso”. Desde 2007, ele vem desenvolvendo uma linguagem dentro das artes visuais. “A questão da fotografia é muito importante pra mim porque tudo é fotografia”, diz. “A partir da fotografia eu crio o meu trabalho, eu me utilizo das coisas pra poder criar assim como eu me utilizo da música para criar. O meu conceito de fotografia se associa ao desenho e à pintura. Eu não consigo pensar que a fotografia seja só o registro de alguma coisa, que eu acho bonito, acho legal, mas, quando eu vou mexer com a fotografia, ela acaba se tornando uma possibilidade de eu poder desenhar e pintar com ela”.

Segundo Bebeto, as exposições que mais o marcaram Ex Deus, de 2015, e Instruthuras, de 2013, ambas mostras fotográficas realizadas no Atelier Jabutipê, em Porto Alegre. Ex Deus tratou da descoberta de uma ideia original, associando-a ao conceito de que Deus seria pura energia. Com isso, o artista fez uma representação de Deus como uma lâmpada. “Essa lâmpada estava em tudo, ela surgia em todas as dimensões da exposição”, explica Bebeto. Instruthuras abordou a unidade humana e as estruturas internas do sujeito. “Eu estava passando por uma fase bem complicada de saúde e aquilo mexeu comigo, então eu criei um universo de concreto, de prédios, de construções, de pontos, mas tudo meio que se desmanchando”, conta.

Um verdadeiro criador polivalente, Bebeto Alves é mais conhecido pela música. “O processo é o mesmo, a linguagem que é diferente”, comenta sobre o processo criativo de suas diferentes obras. “Se é uma música, eu tenho um jeito de fazer aquilo, de criar aquilo e tem um limite pra aquilo também. Agora, as artes visuais, de uma certa maneira, elas me possibilitam romper mais coisas até porque, como não tenho uma escola de formação nas artes visuais, eu tenho mais liberdade de criar, de inventar e de romper com certas coisas. Então, é um ponto a favor. Por outro lado, também é um ponto negativo não ter uma escola, mas buscamos muita informação, muitos conceitos e buscamos nos entender dentro de um processo longo de descoberta”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *