Antologia Digital da Poesia Gaúcha: Romar Beling

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de Romar Beling, declamados pelo próprio autor. São eles: Quem trago, É tempo de seara e Ode ao sempreClique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Em sua primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Natural de Linha dos Pomeranos, na região serrana de Agudo, Romar Rudolfo Beling nasceu em 24 de julho de 1969. Desde 1988, está radicado em Santa Cruz do Sul, onde há cerca de 30 anos atua no jornalismo junto à Gazeta Grupo de Comunicações. Graduado em Letras, é especialista em Literatura e mestre em Letras – Leitura e Cognição. Professor, editor, escritor, cronista e poeta, foi editor da Editora Gazeta e atualmente é diretor de Conteúdo Multimídia da Gazeta Grupo de Comunicações. Publicou os livros: A história de muita gente, livro alusivo aos 50 anos da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e à presença histórica do tabaco na história mundial; Terra de bravos: imigração alemã no Brasil 180 anos, de 2007; Noites em chamas, sua estreia em livro de poesia, em 2011; Uma poética da memória: o holocausto na obra de Jorge Semprum, ensaio, publicado em 2011; Trinta e seis: fotos com poesia, livro que mescla poemas com fotos do fotógrafo Lula Helfer e que teve ainda poemas de Mauro Ulrich e Daniela Damaris Neu, publicado em 2013; as antologias Nem te conto I, II e II, que organizou em conjunto com o professor Rudinei Kopp, entre 2012 e 2014; e A felicidade de estar vivo, segundo livro de poesia, em 2017. Além disso, tem artigos e ensaios publicados em revistas e livros, além de ter colaborado com poemas e crônicas em coletâneas e antologias.

Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados em sua obra.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

Romar Beling – Entendo que essa foi uma iniciativa muito feliz, tanto pela idealização da forma de divulgação de poesia nesse ambiente específico quanto pela parceria estabelecida. Nesse período tão marcado pela pandemia, e que inviabilizou muitas das atividades que proporcionariam mais exposição, com ações presenciais, projetos como o da Antologia Digital da Poesia Gaúcha permitem que um público mais amplo e eclético tenha contato com essa forma de expressão que é a poesia. E o fato de essa ação reunir nomes já consagrados com outros, talvez menos conhecidos da população, é igualmente uma forma de congraçamento e de aproximação entre gerações e diferentes vozes autorais. Uma iniciativa muito louvável, que, torço, possa vir a inspirar outros organismos, e me sinto honrado e lisonjeado por dela fazer parte.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

Romar Beling – Escrevo poesia desde muito jovem, num primeiro momento sem maior pretensão ou sem imaginar que talvez viesse a fazer dessa uma forma pessoal de expressão artística ou cultural. Na verdade, o motivador veio do meu gosto, desde a infância, por leituras variadas e de qualidade, de jornais, revistas, prosa e poesia. Quando ingressei no curso de Letras, na Unisc, isso em 1988, firmou-se para mim a determinação de que a leitura e a produção de textos seriam meu campo de atuação. Formado em Letras, tornei-me jornalista, atividade na qual permaneci ao longo dos últimos 33 anos. Segui escrevendo poesia, e publiquei dois livros nesse gênero, Noites em chamas, em 2011, e A felicidade de estar vivo, em 2017. Igualmente me dedico a crônica e ensaio, embora hoje tenha a produção jornalística como minha ocupação diária. E costumo me definir, mesmo na condição de jornalista ou de poeta, essencialmente como leitor. Leio de tudo, sobre tudo, buscando manter máximo e constante olhar sobre o panorama da literatura brasileira e mundial, e em poesia li praticamente tudo e todos que seria relevante a um poeta digno desse nome ler, dos nacionais e dos estrangeiros, de todas as épocas e voltados a todas as correntes de fazer poesia.

O que motivou a escolha do poema Quem trago para a Antologia? O que ele significa para ti?

Romar Beling – No Quem trago busco brincar, por assim dizer, com uma construção visual do poema, da distribuição dos versos na página, em variadas extensões, e explorando o ritmo, a sonoridade, que vem tanto das rimas quanto da própria extensão, com paralelismo, dos versos. Assim se tem uma primeira parte, a I, com duas estrofes com a mesma construção de quatro versos e as rimas entre uma e outra estrofe; depois uma segunda parte, a II, com uma espécie de contraponto a essa primeira; para então arrematar com a parte III novamente com a mesma disposição de duas estrofes de quatro versos cada, e com as mesmas rimas entre as duas estrofes a exemplo do que ocorrera na parte I. Há um diálogo visual muito claro, consciente e proposital entre as partes I e II, como um começo e um fim, mediado por um fiel da balança da parte II. O poema fala claramente de amor, onde um indivíduo (o eu poético, no qual o leitor se projetará), reconhecendo que ele será sempre o menino que um dia foi, mas é um homem que precisa do abraço, do aconchego, como sina definitiva para a plena realização do viver, para a felicidade. É um poema de que gosto muito, pela simplicidade e por ser despojado, e creio que pode soar bem a homens, mulheres, pessoas de todas as idades.

E quanto a É tempo de seara?

Romar Beling – A “seara” do título, com o significado de colheita, remete ao momento na vida em que, depois de ter plantado e cuidado, a pessoa “colhe”, desfruta do resultado de tudo aquilo que antes motivou seu esforço, seu empenho. É uma vez mais um poema em cujo intertexto está a concretização de um amor, ou o resultado de algo ao qual o eu lírico se dedicou, o que ele almejava. Há novamente a rima entre uma estrofe e outra, e novamente com versos curtos, brincando com o ritmo e a sonoridade. O poema remete a uma colheita que é realizada a quatro mãos, no relacionamento marcado pelo amor e pelo companheirismo, “no reino que faço / contigo”, como sinaliza a última estrofe. Penso que o amor, o afeto, a sabedoria, na relação humana, são os temas clássicos, essenciais e definitivos da poesia, pela qual e com a qual abrem corações e mentes.

E o poema Ode ao sempre?

Romar Beling – Novamente, a exemplo dos outros dois poemas, Ode ao sempre é essencialmente uma definição para o sentimento, para o amor, numa celebração da importância da pessoa amada. Nesse caso, quando o eu lírico “se perde” na outra pessoa ou com a outra pessoa, ele se acha. Aqui se salienta muito a alteridade, tão evidente no amor pleno, em que um se conhece e se reconhece a partir do outro, fundindo e confundindo mentes, desejos, sonhos, planos e aspirações. Penso que o leitor também se identificará muito rapidamente com a essência e o significado do poema a partir da leveza, da sonoridade e da simbologia empregadas.

Como é teu processo criativo?

Romar Beling – Embora o poema, como visualmente se pode verificar, implique em uma construção muito rigorosa, exata, na extensão dos versos, na disposição das rimas, dentro de cada estrofe ou entre uma e outra, o que sugere um exercício cerebral, de escolhas, os meus poemas são muito intuitivos também. Normalmente há uma primeira imagem e a intenção de dizer, traduzir, sugerir um efeito, um significado, e assim o poema se constrói, se veste. Quase sempre meus poemas apresentam versos curtos ou médios, que apresentam um ritmo ou uma sonoridade muito peculiar. Prezo e persigo essa construção, esse efeito visual na página, que, em algumas ocasiões, tem quase um significado “visual” em paralelo ao do conteúdo linguístico propriamente dito. Claro, quem ouve o poema sendo lido não tem a imediata noção dessa disposição gráfica, mas ela para mim é importante.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

Romar Beling – Lido naturalmente, como talvez ocorra com quase todos os poetas e escritores, com os temas que falam muito alto à minha formação, a minha origem, as experiências ao longo da trajetória de formação, a memória de situações vivenciadas. Mas também gosto de promover intertexto com as leituras feitas, de maneira que muitas vezes leituras, viagens e outras experiências estéticas (música, cinema, artes plásticas, fotografia) são incorporadas. O poema, para mim, é uma via de expressão do íntimo, dos sentimentos, e eventualmente até mesmo a fixação, no papel, de uma filosofia, de uma concepção filosófica da vida, do mundo. Não consigo compreender uma vida plenamente vivida sem que ela inclua ou envolva a leitura constante de poesia, diante do exercício de reflexão e de expansão da consciência que só as metáforas permitem alcançar.

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