Antologia Digital da Poesia Gaúcha: José Nedel

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de José Nedel, declamados pelo próprio autor. São eles: Reinvenção da roda, Safras medianas e Onça bebe águaClique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Nessa primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Natural de Itapiranga, em Santa Catarina, José Nedel mudou-se ainda jovem para o Rio Grande do Sul, onde estudou e trabalhou por quase toda sua vida, na capital e em diversos municípios do interior. Hoje, reside em Porto Alegre. Graduado em Letras Clássicas, Filosofia e Direito, é mestre e doutor em Filosofia. Juiz de direito e professor aposentado, é autor de muitos artigos em jornais, revistas e obras de autoria coletiva, bem como de duas dezenas de livros individuais, entre os quais estes puramente literários: A curvatura da razão: poemas (2009); A vez do verso: sonetos (2011); A vez do verso: quadras (2012); Última floresta: sonetos (2015); Quadras em metro (2016); Vida breve: sonetos (2018). Ocupa a cadeira 34 da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL). Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

José Nedel – Trata-se de uma iniciativa maravilhosa do escritor e poeta Élvio Vargas, meu colega na ARL [assessor da Trensurb e organizador do projeto]. A iniciativa propiciará diariamente a milhares de usuários do trem contato com poemas, a fina flor da literatura. Representará para eles, que se encontram, muitas vezes, em meio à correria imposta pelos afazeres da vida, um valioso momento de emoção estética e reflexão. Sinto-me honrado pelo convite para participar do projeto. Um poema bem executado é a criação de um tipo de beleza. O belo é uma forma de bem. Afinal, o que importa na vida é fazer o bem.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

José Nedel – Escrevia desde os meus tempos do ginásio, quando tinha 14 ou 15 anos de idade. Posteriormente, revia os textos guardados, emendando alguns e descartando outros. Como professor, costumava registrar em textos as matérias que lecionava. Muitas vezes, mimeografava-os para os alunos. Retocados mais tarde, tais escritos passaram a formar a maioria dos livros que publiquei, vinte obras individuais até agora, entre elas seis de poemas, na forma de sonetos e quadras. Escrevi também muitos artigos em jornais, grande parte aproveitada na composição de meus livros.

O que motivou a escolha do poema Reinvenção da roda para a Antologia? O que ele significa para ti?

José Nedel – Escrevi este soneto, motivado por uma frase do médico e escritor Alcides Mandelli Stumpf, autor de Amigos & Medos. Em entrevista publicada no Correio do Povo, Caderno de Sábado, 26/01/2019, p. 4, ele disse: “Existe uma tendência de reinventar a roda”. A expressão não era nova para mim, mas naquele momento me causou um impacto: a instantânea percepção de que serviria como chave de ouro de um soneto. A partir disso, passei a compor-lhe o corpo, com começo, meio e fim, como deve ser de praxe. O poema incorpora um toque biográfico: a aprendizagem de que, com a idade, tendemos a ficar mais modestos nos arroubos, mais conformados com as limitações naturais e mais realistas nos projetos e empreendimentos.

E quanto a Safras medianas?

José Nedel – Escolhi este soneto para a Antologia porque é condizente com a condição humana comum a todos: a mistura de bens e males, de alegrias e sofrimentos, de vitórias e derrotas. Em geral, alcançamos média razoável dessas realidades ambivalentes e agridoces, uma espécie de safras medianas, sendo raras as ótimas, primorosas, excelentes. É da vida, da experiência de cada um.

E o poema Onça bebe água?

José Nedel – A expressão “Um dia a onça vem e bebe água” é bem conhecida. Certa vez, a Cláudia Tajes a usou em comentário acerca do Prêmio Camões concedido ao cantor, compositor e escritor Chico Buarque, em 2020. Ao ler a crônica da Cláudia, tive a intuição de que a expressão dava para o fecho de um poema, no caso, um soneto. A partir disso escrevi o texto. O poeta, como todo artista, precisa de um choque, estalo ou assombro causado por fato, circunstância, pessoa ou frase que lhe desperte a inspiração. O fazer humano nunca é ex nihilo, vale dizer, a partir do nada. Também não sai perfeito, por via de regra, na primeira tentativa. É preciso fazer e refazer, tentar sempre de novo, aperfeiçoar até que dê certo. E um dia dará, se Deus quiser. Assim se realiza o belo na arte, “aquilo que visto (ouvido, percebido, conhecido) agrada”, segundo a clássica definição de Tomás de Aquino.

Como é teu processo criativo?

José Nedel – Escritos de natureza filosófica surgem das atividades profissionais do magistério: escrevo os textos para as aulas que, reunidos e retrabalhados, formam livros. Poemas surgem a partir de assombros, choques ou intuições despertadas por imagens, coisas, pessoas, palavras ou textos sugestivos. Tudo demanda muita leitura, anotações, estudo, reflexão e prática. Bem escrever requer, primeiro que tudo, bem pensar. Meus cursos de Letras Clássicas, Filosofia e Direito valem para isso: formam um tripé que sustenta o meu fazer literário.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

José Nedel – Na área teórica, meus temas prediletos são de teoria do conhecimento. Na área prática, são temas de ética, estética e filosofia do direito. Meus textos literários sempre têm algum conteúdo filosófico, moral, espiritual ou bíblico. Por sinal, a Bíblia, o livro dos livros, é um repertório inexaurível de temas de reflexão que podem ser apropriados, de modo especial, em forma de sonetos.

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