Mobilidade em debate – parte 3: expansão da Trensurb, mobilidade integrada e financiamento

Recentemente, a Trensurb recebeu em sua sede um seminário realizado em parceria com a Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos). Intitulado “Desafios para o Avanço da Mobilidade sobre Trilhos na Região Metropolitana de Porto Alegre”, o evento contou com a presença de especialistas, gestores públicos e autoridades, buscando debater o futuro dos trilhos na mobilidade urbana e apresentar aos gestores os benefícios da expansão da rede metroferroviária. Nesta série de três publicações, trazemos os principais pontos apresentados no seminário, em seus painéis e pelos gestores presentes. Após destacarmos as manifestações das autoridades e gestores participantes e os temas tratados no primeiro painel do evento, trazemos um resumo do segundo painel, que trouxe apresentações: de estudos da Trensurb para expansão dos serviços; da importância da mobilidade integrada; de programas de financiamento do governo federal.

David BorilleO painel teve início com uma apresentação do diretor-presidente da Trensurb, David Borille. Ele tratou dos estudos da empresa para expansão dos serviços a mais seis municípios – Cachoeirinha, Gravataí, Alvorada, Campo Bom, Sapiranga e Triunfo – além daqueles atendidos atualmente – Porto Alegre, Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo e Novo Hamburgo. Essa expansão faria com que a população total dos municípios atendidos diretamente pela Trensurb subisse dos atuais 2,5 milhões de habitantes para mais de 3,3 milhões, um incremento de cerca de 32%.

Na primeira fase dessa expansão, a Linha 2 da Trensurb iria da região da Azenha, em Porto Alegre, até o terminal Triângulo, à Fiergs e ao município de Cachoeirinha, com 23,6 quilômetros de trilhos e 20 novas estações. Numa segunda fase, a linha passaria por Cachoeirinha e chegaria até Gravataí num trajeto de 12,3 quilômetros com oito estações. Uma terceira fase contaria com um ramal de 8,7 quilômetros, saindo do terminal Triângulo e indo até Alvorada, com cinco estações adicionais. O trecho até o Triângulo seria em via subterrânea e os demais em via elevada. Com a conclusão dessa expansão, estima-se uma demanda de 430 mil passageiros por dia na Linha 2 e 220 mil na Linha 1. O custo total estimado é de US$ 3,3 bilhões.

A expansão da Trensurb até Campo Bom e Sapiranga seria feita por VLT, em duas fases. A primeira partindo da Estação Novo Hamburgo do metrô num trajeto de 9,5 quilômetros até Campo Bom, com 12 estações. A segunda, de Campo Bom a Sapiranga, com 7,1 quilômetros e quatro estações. A demanda total estimada para os dois trechos é de 24 mil passageiros. A Trensurb também estuda a criação de um ramal de Canoas até o Polo Petroquímico de Triunfo com 22,5 quilômetros e duas estações, uma no Polo e outra no bairro Harmonia, em Canoas, atendendo também a população do bairro Mathias Velho.

Esses projetos estudados significariam 51 novas estações e mais 83,7 quilômetros de via em adição aos atuais 43,8 quilômetros e 23 estações (considerando-se a linha do aeromóvel). Também reduziriam em cerca de 8 mil o número de viagens diárias de ônibus ao Centro de Porto Alegre, em aproximadamente 3 mil toneladas a emissão anual de poluentes e em 13,8 mil o número potencial de acidentes de trânsito. Borille definiu os projetos como um “sonho”, que poderia ser realizado com uma possível parceria da iniciativa privada.

A apresentação seguinte foi do secretário adjunto de Projetos Estratégicos da Prefeitura de Canoas, Francisco Hörbe. Ele iniciou com um panorama da mobilidade urbana da Região Metropolitana de Porto Alegre, que tem 34 municípios e 4,3 milhões de habitantes. Segundo o secretário, 30 mil viagens diárias chegam ao Centro de Porto Alegre ao invés de abastecer sistemas troncais, sintoma da irracionalidade da rede de transporte coletivo da região. Outro sintoma é a crescente taxa de motorização nas cidades (número de veículos em relação ao número de habitantes) – que, aliás, cresce em ritmo menor nos municípios atendidos pela Trensurb.

Hörbe falou então dos desafios na mobilidade em Canoas, cidade cortada por quatro rodovias federais e pela linha do trem. Hoje, estão sendo desenvolvidos estudos para a implantação de uma rede estrutural de mobilidade urbana no município, com quatro eixos: um sistema troncal de transporte coletivo; uma rede complementar de mobilidade, com definição de vias estruturantes, número de linhas urbanas e metropolitanas, além de um corredor de ligação metropolitano; uma rede cicloviária, integrada às estações da Trensurb em Canoas; a revitalização da área central de Canoas, delimitada pela BR-116 e a linha da Trensurb. A implantação desse sistema beneficiaria pelo menos 70 mil usuários do transporte urbano, custando R$ 224 milhões. O secretário elencou ainda alguns desafios para a qualificação da mobilidade urbana: a dificuldade de se estabelecer uma gestão compartilhada, com sistemas integrados de bilhetagem e redes estruturais integradas; a adoção de sistemas sustentáveis, com investimento em tecnologias menos poluentes, transporte público e transporte complementar, como bicicletas.

A apresentação final do painel foi do diretor do Departamento de Planejamento e Gestão da Mobilidade do Ministério do Desenvolvimento Regional, Cléver de Almeida. Ele iniciou tratando das principais ações da Secretaria Nacional de Mobilidade e Serviços Urbanos do Ministério, como: esforços para alinhamento das estratégias da Política Nacional de Mobilidade Urbana às políticas urbanas setoriais; financiamento de estudos e projetos; busca de novas fontes de recursos; identificação de ações de melhoria operacional nos sistemas de transporte. Almeida afirmou também que o MDR está desenvolvendo o Plano Nacional de Mobilidade Urbana, que deve trazer uma visão focada em resultados como diminuição do tempo de deslocamento e da emissão de poluentes, sem entretanto apontar soluções específicas, cuja definição deve ficar a cargo de cada município ou estado.

A seguir, o diretor do Ministério apresentou os programas de financiamento do governo federal, como o Avançar Cidades – Mobilidade Urbana, que oferece crédito aos municípios para diversas ações, incluindo a implantação de novos sistemas de transporte público, a realização de estudos e projetos executivos, a execução de terminais, estações, ciclovias, entre outros. Há também programas como o Refrota, para renovação de frota de operadores privados de linhas de ônibus, e o Retrem, para aquisição ou reforma de veículos metroferroviários por entes públicos ou privados. Almeida concluiu sua apresentação declarando: “Precisamos trabalhar com a união de esforços, com a integração de todos, para melhorar a mobilidade urbana e, consequentemente, a vida das pessoas”.

Após o término das apresentações, os painelistas discutiram com os presentes questões relativas a integração intermodal, escolha de tecnologia para atender determinada necessidade de deslocamento, entre outros temas.

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