Leituras a Bordo: Cristina Macedo fala sobre Lila Ripoll e Lara de Lemos

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb desenvolve o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Encerrando a Antologia, serão lançados vídeos de poemas de Lila Ripoll e Lara de Lemos declamados por Cristina Macedo. Clique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Em sua segunda fase, intitulada Leituras a Bordo, a Antologia destaca poetas ligados ao regionalismo ou que foram marco na poesia sul-rio-grandense, declamados por seus pares. Desde outubro de 2020, o projeto tem promovido a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Nascida em Santa Maria, escritora, poeta, tradutora, graduada em Letras pela UFSM e mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRGS, Cristina Macedo também é membro da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul. Em 2015, publicou seu livro solo de poesia do arrebatamento. Anteriormente, participou da fase inicial da Antologia Digital, quando declamou quatro de seus poemas. Agora, voltamos a entrevistá-la para falar sobre a vida e a obra dessas poetas gaúchas marcantes, Lila Ripoll e Lara de Lemos.

A política influenciou muito a poesia de Lara de Lemos e Lila Ripoll?

Cristina – Sim, muito. As duas poetas foram participantes ativas da política nacional, sendo que Lila foi, inclusive, militante do Partido Comunista Brasileiro. A decisão de filiar-se ao PCB veio depois de seu primo ter sido assassinado, em 1934, por razões políticas, o que fez com que a poeta se vinculasse mais fortemente às lutas e causas sociais.

Lara não se integrou a nenhum partido político, mas lutou durante toda sua vida por justiça social. Como jornalista que era, além de poeta e tradutora, acabou sendo presa pelo regime militar, na década de 1970, e teve que interromper sua carreira jornalística: escreveu, juntamente com Paulo Cesar Pereio, o Hino da Legalidade. O movimento defendia a posse de João Goulart na presidência do Brasil, depois da renúncia de Jânio Quadros.

Lila Ripoll foi igualmente presa pelo regime militar, em 1964. Ficou pouco tempo encarcerada por estar muito doente.

A luta política influenciou a poesia das duas poetas: Lila tem um livro, cujo título é Primeiro de Maio, onde escreve um poema testemunho do massacre que aconteceu no Dia do Trabalhador, em Rio Grande, quando a polícia metralhou integrantes da parada cívica.

Lara escreveu, por exemplo, Itinerário do Medo, em 1997, cujo tema é seu encarceramento, duas vezes, pelo regime militar bem como a prisão de seus dois filhos, sendo que o mais velho permaneceu detido por longo tempo.

Enfim, a política e o social estão presentes em suas obras, mas, como excelentes poetas que foram, souberam não ser panfletárias, a política está nas entrelinhas, com poemas repletos de metáforas, cuidado formal e rica expressão imagética.

Até que ponto um poeta lírico mescla com seu lirismo um poema social?

Cristina – Sou daquelas que acreditam que o lirismo aprimora e leva mais longe o poema social, isto é, se o poema é excessivamente político/social, ele perde em poesia, torna-se meramente panfletário, como eu falava acima. Tanto Lila quanto Lara, enquanto falam das injustiças sociais, contemplam a tristeza, a inquietação, o medo, porém transpostos para o poético. Ambas costuram, em seus versos, a objetividade do social com sua subjetividade lírica.

Os traços biográficos de Lila Ripoll e de Lara de Lemos influenciaram nos seus poemas?

Cristina – Certamente e creio que nenhum poeta ou escritor possa fugir disso. Observa-se essa influência na obra das poetas, desde as memórias da infância no interior, caso de Lila, até e principalmente as lutas que travaram pela justiça social durante suas vidas. Estão contemplados em seus poemas a geografia das paisagens, os seres, os sentimentos da mulher e sua dor, as memórias de insegurança e medo bem como de alegrias e amores.

Toda essa temática, no entanto, nos é apresentada através de uma poesia densa, sem artifícios, perpassada pela melancolia e transfigurada em lirismo.

Qual é o legado de ambas, para os novos(as) poetas desta última geração?

Cristina – Lila Ripoll e Lara de Lemos foram – e são – um marco na poesia sul-rio-grandense. Ambas foram diversas vezes premiadas: Lila recebeu, entre outros, o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (1941) e o Prêmio Pablo Neruda da Paz, em Praga (1951) e Lara, também entre outros, recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Menotti del Picchia (1990) e o Prêmio Açorianos de Poesia (1995). Em 1968, já havia recebido o Prêmio Jorge de Lima, do Instituto Nacional do Livro.

Além disso, tiveram participação muito ativa nos meios literários nacionais, tendo Lila participado da “Geração de 30”, onde convivia com Dyonélio Machado, Mario Quintana e Cyro Martins, para citar alguns nomes.

Lila e Lara são poetas inescapáveis para os novos poetas, especialmente para as novas poetas mulheres, porque em um tempo em que muito se fala de empoderamento feminino, é importante assinalar que elas já tinham consciência das mazelas femininas e sobre elas escreviam desde 1938, no caso de Lila, e 1957, no caso de Lara. Lembro de Lara dizer, em uma entrevista, que sabia bordar, costurar, cozinhar, mas que as atividades domésticas eram insuficientes, ela queria mais, ela queria escrever poesia. E conseguiu.

Enfim, bem mais importante do que as questões de gênero, é o talento que as poetas possuíam para fazer versos que, partindo de vivências pessoais, transformaram em poesia universal.

A influência de Cecília Meireles está mais presente na obra de Lila ou Lara?

Cristina – Prefiro responder transcrevendo um poema de cada uma das três poetas, em que o mar é pano de fundo para a dor, a tristeza, o naufrágio:

NAUFRÁGIO

                   Lila Ripoll

Uma sombra cobriu meu sonho,

desceu à terra, foi para o mar.

Vivo um pouco em cada barco

que naufraga silencioso,

sem chamar.

Um amor morou no meu peito,

cresceu sem medo, mas se escondeu.

Estou sempre em cada estrela,

que brilha um pouco e se apaga,

como eu.

Os meus braços estão quebrados,

sem ânsias novas para prender.

Rotas velas no mar alto,

levam sangue derramado,

sem morrer.

NO MAR IMENSO

                            Lara de Lemos

Sou nave que não chega a termo

por ter no imenso naufragado.

Perdi roteiro e velame,

perdi rumo, remo e mastro.

Quisera destino certo,

navegando em águas densas,

navegando em céu aberto,

embora sem esperanças.

O naufrágio foi meu fado,

que roubou força e destino,

que destruiu meu passado

deixando só desatinos.

Agora navego a esmo,

como uma nave perdida.

Não sigo porque sou cego,

nem volto ao cais de partida.

BEIRA-MAR

                        Cecília Meireles

Sou moradora das areias,

de altas espumas: os navios

passam pelas minhas janelas

como o sangue nas minhas veias,

como os peixinhos nos rios…

Não têm velas e têm velas;

e o mar tem e não tem sereias;

e eu navego e estou parada,

vejo mundos e estou cega,

porque isto é mal de família,

ser de areia, de água, de ilha…

E até sem barco navega

quem para o mar foi fadada.

Deus te proteja, Cecília,

que tudo é mar – e mais nada.

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