Entrevista: Claudio Benevenga, Letícia Alves e o empoderamento do negro

20 de novembro é o Dia da Consciência Negra, dedicado à memória, a cultura e a ancestralidade dos negros no Brasil. O 20 de novembro homenageia Zumbi dos Palmares, líder quilombola e símbolo da luta contra a escravidão. Nessa data, em 1695, ele foi assassinado por tropas coloniais brasileiras.

Em cartaz na Galeria Xico Stockinger, na Estação Rodoviária da Trensurb, até 3 de janeiro, a exposição fotográfica Black Power também celebra o negro, busca trabalhar seu empoderamento. A mostra de Claudio Benevenga trabalha com o universo híbrido, com registros carregados de força e dramaticidade, nos quais o autor mistura toda a experiência ao longo de mais de trinta anos de atuação na moda, publicidade, cinema e teatro. Conversamos sobre a exposição com Benevenga e com Letícia Alves, atriz e cantora que foi uma das modelos da mostra. Confira as entrevistas a seguir.

Claudio Benevenga

Qual o conceito dessa exposição?

Essa exposição trabalha com a questão do empoderamento. Eu estava pesquisando antes de criar um mote para a exposição e, como eu tenho muitos amigos negros, que trabalham comigo no teatro, me veio a questão do preconceito, que aumentou não só no Brasil, mas em vários lugares do mundo. Então, isso prova que o racismo não está em determinado espaço, mas é uma coisa inerente ao ser humano.

Qual a importância de tratar desse tema?

Eu achei importante porque é uma ação que coloca negros em situação de protagonismo e para que sejam vistos, para que a nossa realidade social mude, porque através da imagem podemos mudar isso. Então, a ideia inicial da exposição era essa.  E, por incrível que pareça, estamos a cento e tantos anos após a abolição da escravatura no Brasil e o racismo ainda continua muito forte. E eu acho essencial que continuemos fazendo muitas ações para que tentemos mudar um pouco essa realidade.

Como foram escolhidos os modelos para compor a exposição?

No elenco, temos atores, bailarinos, imigrantes, senegaleses, alguns são meus conhecidos, outros vieram por indicações. Tem um senegalês que eu abordei na rua, que era um camelô de rua, porque eu queria muito fotografar um negro de raiz, da África. E a exposição original, que aconteceu em junho deste ano, na Casa de Cultura Mario Quintana, teve mais imagens. Aqui [na Galeira Xico Stockinger],  não poderíamos trazer todas. São 12 fotos na original, então tem um elenco bem diversificado.

O que você pensa sobre expor em uma estação do metrô?

A ideia inicial dessa exposição era que ela fosse acessada por um número grande de pessoas, porque a ideia dela é que as pessoas vejam, se reconheçam e se empoderem. E, mesmo que coloquemos isso em uma galeria de arte ou em um museu, isso acaba elitizando um pouco. Então eu mandei a proposta para o Sesc e eles me mandaram uma contraproposta de trabalhar aqui com a Trensurb, e eu achei fantástico, tanto que agora estamos criando projetos para que essa exposição vá para lugares bem populares mesmo.

Letícia Alves

Como surgiu a possibilidade de você fazer parte da exposição?

Foi um convite do Claudio que eu recebi. Eu já conhecia o Claudio tem uns bons anos, nos conhecemos através de uma indicação na época em que ele estava com o musical dele e precisava de uma cantora negra. A partir daí, eu comecei a trabalhar direto com o Claudio, então minha carreira como atriz começou com ele e aí eu recebi esse convite para participar dessa exposição maravilhosa.

O que você pensa sobre o tema abordado na exposição?

Eu acho necessário, importante e essencial na sociedade. Precisamos ressaltar, precisamos mostrar que o negro tem que ocupar espaço e a única forma é reverberando uma arte dessa forma.  Eu acredito que a veia artística está muito ligada a esse sentido de explorar outras visões de negros em um mercado que infelizmente não vemos tanto, mas existe e tem pessoas maravilhosas, tanto que estamos vendo essa exposição. Muitos nunca tinham trabalhado como modelo, nunca tinham feito fotos e se tornaram referências nesse sentido, dessa exposição. Então, eu acho que a importância maior é que tem que ser mostrado.

Como você avalia a localização da exposição, numa estação do metrô?

Eu acho muito importante quando temos exposições dessa forma, em locais públicos, em locais de passagem, em locais que passam muitas pessoas. Eu acho que é essencial, porque fica à frente do público, fica próximo dele.  Muitos ainda têm o bloqueio de ir ao teatro, de assistir uma peça, independente de valor. Temos um público que não tem essa cultura de visitar espaços e tornar isso real para essas pessoas é muito importante, porque parece que fica à frente delas, fica visível.  E acho que, a partir disso, vamos ter mais pessoas visitando espaços de arte.

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