Entrevista: Ale Maia e Pádua e sua abordagem artística da história

Em cartaz na Galeria Mario Quintana, na Estação Mercado da Trensurb, até 30 de outubro, a exposição VIVER É LUTAR, do artista plástico Ale Maia e Pádua, destaca a pintura digital RIO 1567. A obra propõe uma abordagem artística da Revolta dos Tamoios e da França Antártica, dois episódios históricos importantes para a formação do Rio de Janeiro e do Brasil como o conhecemos.

Natural de Niterói e graduado em design pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de Porto Alegre, Ale Maia e Pádua já assinou duas exposições que passaram pela Estação Mercado: Entre Linhas e Painéis, no Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos, em 2015, e Onde Há Dor, Há Vida, na Galeria Mario Quintana, em 2016.

Leia abaixo a entrevista que fizemos com Ale, que nos falou sobre a inspiração para a nova exposição, sua visão dos fatos históricos retratados, os desafios da pintura digital e sua trajetória como artista.

De onde surgiu a ideia de fazer uma exposição sobre a Revolta dos Tamoios?

Eu recentemente estive na França e notei, em um dos museus que fui, que esporadicamente os artistas se doam para pontuar passagens históricas. De alguma maneira, eles tentam ilustrar momentos que aconteceram e que não se podia ter um registro visual. Eles empregam o saber deles em seja lá qual for o tipo de pintura para ajudar a ilustrar, a contar uma história sobre um determinado ponto, episódio histórico. Só que eu reparei que isso não acontecia aqui. Eu, através das minhas pesquisas, não achei muito disso por aqui. Então eu tentei reproduzir, tentei refazer essa prática. Aprendi o que eu vi lá e tentei trazer para nós.

Dentre tantos retratos da história do Brasil, por que escolher especificamente a Revolta dos Tamoios?

Eu tinha que começar por algum ponto. Tem uma frase de um cara que eu gosto muito, que é o Liev Tolstói, que diz que se nós de alguma maneira queremos atingir o mundo inteiro, queremos ser universais, temos que começar humildemente pela nossa própria vida. [“Se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia”]. Não adianta querermos pensar grande e não olharmos para a nossa própria vizinhança. Eu sou de Niterói. Quando eu decidi fazer isso, teve-se que partir de algum lugar, então resolvi partir de um ambiente em que eu estava inserido, que é Niterói e Rio de Janeiro.

Qual tu avalias que foi a contribuição que a Revolta dos Tamoios e a aliança com os franceses gerou para o contexto e formação cultual tanto do carioca quanto do brasileiro em si?

É incontável não só para o carioca, não só para o brasileiro, mas para o mundo. O contato do francês com o índio germinou ideias que são contabilizadas até hoje dentro do que enxergamos como antropologia moderna, sociologia… Grandes nomes como Lévi-Strauss e Rousseau citam o índio selvagem brasileiro como parte fundamental dos avanços dessa ciência atual. Outras coisas podem ser citadas, mas daí precisamos contar pequenos trechos. Tem uma história que é muito bacana e não é tão importante quanto a base antropológica do mundo, mas reflete bem o quanto isso interferiu na sociedade como ela é hoje. Sabemos dessas histórias que aconteceram em 1567 porque pessoas que viveram naquela época escreveram livros. Graças a esses livros que conseguimos ler e entender como as coisas aconteceram. Um dos autores que aqui estiveram foi um cara chamado André Thevet. Ele era francês e esteve aqui no Brasil, lá no Rio de Janeiro, com Villegagnon e escreveu que uma das piores coisas que ele viu até então tinha sido uma briga entre índios. Os índios brigavam de maneira muito primitiva. Eles se machucavam muito. Não eram como os europeus que se davam socos, eles arrancavam pedaços. Ele pontuou, também, que os índios cortavam o cabelo bem raspado na parte da frente porque a primeira coisa que um índio fazia era tentar agarrar o cabelo para imobilizar o adversário. Enquanto isso, as índias usavam franjinha no cabelo. Sabemos que, até hoje, dentro do âmbito cultural ocidental, a França, mais do que a potência econômica que são os Estados Unidos, rege a cultura, principalmente a moda. Sabemos também que a franja é usada pelas francesas até hoje. E usamos franja e não conseguimos imaginar que, talvez, o fato da franja ser uma moda hoje em dia seja o reflexo do convívio francês com o índio que usava franja na época. Até então não se usava franja. É um ponto que, para ilustrar, serve bem, porque demonstra toda a possibilidade de miscigenação que aconteceu entre os dois povos. Isso que é o mais fantástico: a miscigenação.

Fale um pouco sobre essa miscigenação.

A miscigenação se deu tanto no campo do conhecimento, que falamos agora com esse exemplo da antropologia e esse exemplo corriqueiro do cabelo, quanto no âmbito da genética. Muitas crianças nasceram nesse período de pouco mais de dez anos, aproximadamente, de convivência entre franceses e os índios tupinambás. Então, por consequência, houve sim uma geração de crianças que veio desse convívio. Que foi um convívio harmônico, tendo em vista que existiam regras, leis. Uma forma de encarar as diferenças com o povo português.

Quais são as principais diferenças no tratamento ao índio do povo português e do povo francês?

Apesar de ser curta a maneira como eu vou responder, chega a parecer surreal, porque a gente foi tão doutrinado a acreditar que não é possível conviver em harmonia com índios, ou que se deve segregá-los, ou tratá-los de maneira que não haja nenhum tipo de miscigenação, que quando vemos um povo europeu vindo e conseguindo ter esse convívio em harmonia, nós até estranhamos. A diferença entre eles é justamente essa: a harmonia. Um conseguiu conviver e enxergar no índio uma forma de se misturar na terra, de fazer parte dela. Eles [os índios] eram os verdadeiros brasileiros. Os portugueses, ao contrário, já vinham com a política de escravidão, de estupro, de exploração, então é fácil discernir porque os índios escolheram tão rápido ficar ao lado dos franceses.

Saindo um pouco da Revolta dos Tamoios, gostaríamos de saber mais da tua trajetória como artista.

Eu comecei em 2012, há cinco anos. Me formei em design aqui em Porto Alegre, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Só que a vida me empurrou, acho que nem por escolha. Acho que quando nos descobrimos artistas, vemos que não temos escolha, só temos que produzir. Seja o que você queria produzir e seja da forma como você queira, porque no final o resultado está intrínseco ao artista. Logo que eu me formei, me descobri artista. Todo dia me descubro um pouco mais ou um pouco menos. Mas eu me vi como artista e pratico a arte até hoje. Busco sempre aprimorar uma linguagem própria, mas é uma busca incessante. Eu pareço estar sempre descobrindo coisa nova então não consigo me segurar num único universo, numa única linguagem. Vou descobrindo coisas novas e tentando aplicar novos resultados. Este [a exposição VIVER É LUTAR] é um resultado completamente diferente das coisas que eu fiz anteriormente. Porque é um quadro feito por um processo diferente, um processo digital, e eu até então fazia apenas processos de aquarela, gosto muito de spray também, acrílico… Eu comecei minha carreira com artes plásticas com a caneta posca, que é uma canetinha com acrílico. As superfícies e os materiais vão sendo renovados. Esse processo é diferente porque ele é todo feito no computador. Mas ele tem uma prática muito parecida com a prática física, porque também é uma busca por referências, também é uma busca por imagens que dão sequência a uma ideia.

Como foi a transição da arte física para a arte digital?

Foi difícil. Como é todo aprendizado. É muito difícil, mas é muito gostoso ao mesmo tempo. É uma delícia. Inclusive, talvez seja isso que me mova a fazer coisas diferentes. Sabemos que, no Brasil, ser artista plástico é um desafio. É um desafio ser brasileiro inclusive. O quadro versa um pouco sobre isso e ser artista plástico não poderia ser diferente. Pelo contrário, ser artista plástico é um desafio tão diferente quanto qualquer outro porque você tem que “matar um leão por dia” para conseguir viver de arte e seguir adiante com as suas ideias. Como eu disse antes, não é uma escolha. Nos vemos muitas vezes direcionado a fazer o que temos que fazer, sem nem ter tempo para pensar muitas vezes. Neste caso, eu acabei indo para o campo digital por um motivo que eu achei plausível: como eu estava com vontade de contar essa história para outros lugares que não seja Niterói e Rio, eu sabia que eu ia ter que transportar isso. E a maneira mais prática que eu achei de transportar é pelo meio digital. Foi por isso que eu tomei o partido de fazer esta obra, especificamente, digital.

É muito legal (arte por meio digital), eu gostei muito de fazer. A minha intenção é contar uma história, é abordar um tema por um olhar diferente. A minha intenção com esse quadro é me tirar de foco. Eu não quero ser o foco. É complicado, o artista está sempre pensando nas ideias dele, das belezas dele, nas questões dele e ele esquece que às vezes temos que falar sobre outras coisas e abordar outras coisas. Todo mundo é meio que um centro do universo, todo mundo fica olhando para o próprio umbigo. É difícil você se lembrar dessa vaidade. Se olharmos com menos hipocrisia para nós mesmos, vamos ver que é difícil nos tirarmos do centro. Quando eu tento abordar um tema diferente, de uma maneira diferente e que tem a ver com todo mundo, tem um pouco disso. Tem um pouco de se tirar do foco. Pode ser que em outras exposições eu queria contar coisas sobre mim, mas desta vez, pelo menos desta vez, eu quero falar sobre outras coisas e essas outras coisas tem a ver com todo mundo.

Como tu vês a tua evolução pessoal desde a tua última exposição na Galeria Mario Quintana, há um ano?

Este é o terceiro ano que eu exponho aqui e a evolução, as diferenças que eu noto, primeiro, é a diferença de materiais, que nós citamos. A segunda é esse aspecto de se tirar de foco. Esse exercício de lutar contra si mesmo, porque eu também quero falar sobre mim, mas achei que era mais importante apresentar uma ótica diferente. E esse é o terceiro ponto da evolução: eu trago dentro da obra uma crítica a ser pensada, no sentido histórico. Apesar de saber que isso não é uma aula de história, nem tenho essa vontade e nem seria capaz de dar uma aula de história. Mas eu quero, sim, falar sobre um assunto histórico, mas com um olhar diferente. Uma abordagem diferente. Falar sobre autores que não são lembrados no colégio, na faculdade… Falar sob uma ótica diferente. A arte tem esse poder. Tem o poder de trazer mortos à vida novamente. Tem o poder de fazer sangrar quem já morreu. A minha intenção é mostrar que os heróis de hoje podem ser vistos por uma ótica diferente, contar uma coisa diferente do que é [normalmente] dito. Sou descendente direto de português e sou católico, isso me permite falar sobre o assunto e fazer críticas. Ali eu “demonizo” justamente o português e o catolicismo.

Confira detalhes do quadro RIO 1567 e saiba mais sobre a Revolta dos Tamoios e a visão do autor sobre o episódio acessando este vídeo produzido por ele.

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