Entrevista: a busca por arte e significado nas fotografias de Marcel Estivalet

A partir deste dia 1º, a Galeria Mario Quintana, localizada na Estação Mercado da Trensurb, recebe a exposição Oh, Alegrete!, do fotógrafo Marcel Estivalet. O trabalho busca retratar, através da percepção artística de Marcel, as belezas da cidade e a cultura do pampa. Entre os registros, estão elementos marcantes da tradição gaúcha, como os cavalos, a ponte sobre o Rio Ibirapuitã, a escultura do Negrinho do Pastoreio – símbolo de atração turística de Alegrete -, a estação e o transporte ferroviários.

A exposição nasceu a partir de uma viagem do fotógrafo com seu pai a Alegrete. “Meu pai é natural de lá e eu não conhecia a cidade, mas fui com a máquina e comecei a fotografar.  Quando voltei, vi as fotos que tinha feito e assim nasceu a exposição. Lá o transporte ferroviário foi muito presente e ainda se pode ver os trilhos pelas ruas, por isso encontrei uma relação com a Trensurb e a Galeria”. Para ele, esta intervenção cultural é importante para o seu trabalho, pois é uma forma de compartilhar o próprio olhar. “Às vezes, olhamos algumas cenas que nos despertam percepções que não devem ficar só na nossa caixinha, na nossa cabeça”, afirma.

Natural de Porto Alegre, Marcel Estivalet é formado em violão clássico pela UFRGS e atua como músico e professor desde 2006. Seu contato com a fotografia iniciou há cinco anos, na tentativa de registrar seu olhar sobre determinados ambientes que conheceu. “Meu pai foi minha maior influência, pois ele sempre fotografou por hobby. Para mim, fotografar é uma atividade paralela em que procuro, nos locais por onde passo, arte e algum significado”.

Quer saber mais sobre Marcel e seu trabalho? Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele.

Qual foi sua inspiração para iniciar no mundo da fotografia?

Sempre contemplei muito as paisagens naturais e, depois de um tempo, surgiu a vontade de compartilhar as cenas que via e como as via, parecia mais interessante do que descrever. Comecei em 2011 com um celular e logo passei para uma máquina semiprofissional. Na época, o foco era também divulgar uma casa que eu alugava, em meio à natureza, mas não demorou para eu perceber que havia mais histórias para serem contadas. Comecei a utilizar minhas fotos para decoração, como um gesto de trazer um pouco da natureza para os ambientes urbanos e, então, surgiu o interesse de amigos, depois uma exposição e assim tenho caminhado paralelamente neste universo – ainda descobrindo este vasto campo.

Há alguma técnica que você utiliza? Algum padrão ou filtro para as suas fotos?

Minha busca com a fotografia inicialmente era retratar uma obra de arte já existente na natureza, então havia a busca por essa fidelidade de algo já pronto, mas logo percebi que não era exatamente uma fidelidade realista concreta com a cena e, sim, com a sensação que ela me proporcionava. Então posso dizer que minha técnica se baseia em primeiro buscar a imagem o mais natural e sem filtro possível, operando com a máquina o mais manual que eu consiga e, em seguida, vem a edição, se necessária, em busca de ressaltar algo já existente na cena.

Esta exposição nasceu a partir de uma viagem sua a Alegrete. Qual outra cidade você gostaria de fotografar? Já tem planos para isso?

Eu gosto da imprevisibilidade. Não consigo planejar bem uma foto, prefiro a surpresa da cena, a adrenalina e concentração do clique. Não imagino um lugar onde não haja algo belo a ser fotografado, então, se eu pudesse ter um pedido realizado é poder passar em muitos lugares que ainda não conheço com tempo para fotografar, mas sem a necessidade de. Quando fui para Alegrete, eu não sabia o que iria encontrar, nem sonhava que se tornaria uma exposição… Agora, embora meu fascínio seja pelas paisagens naturais, animais e plantas, gostaria do desafio de fotografar pessoas ao natural (não posando), mas meio que caminhando para onde tenho menos experiência (e um pouco de insegurança!).

Quais outros lugares você já fotografou?

A maior parte das minhas fotos são de Maquiné (e o litoral norte do RS como um todo), mas tenho também fotos de Porto Alegre, do noroeste da Argentina (Córdoba e La Rioja), Rota Romântica e Recanto Maestro (Restinga Seca/RS).

Tem algum fotógrafo que seja referência para você?

Sim. Meu pai – Cilon Estivalet –, Sebastião Salgado e Ita Kirsch.

Quais os seus objetivos com relação à arte, já que esta é uma atividade paralela?

Pergunta difícil. Mas me reconheço feliz fazendo minha arte quando esta faz bem às pessoas que a prestigiam, quando apura a sensibilidade delas e as torna mais humanas. Acredito no belo por natureza, o belo das pessoas, da sua cultura e do mundo. Meu objetivo com a arte é tornar este mundo um pouco melhor de se viver.

Você disse que esta é a segunda vez que expõe. Qual a importância dessas exposições para o seu trabalho paralelo como fotógrafo?

Estou muito honrado com esta oportunidade, pois penso em quantas mil pessoas, no ir e vir do seu cotidiano, poderão refletir nem que seja por alguns segundos sobre estas imagens que compartilho, arejando das suas preocupações e quem sabe trazendo alguma inspiração. E fica a ressalva que, em eras de redes sociais, tenho cada vez mais dado valor aos momentos materiais, a própria fotografia se transforma quando impressa. Por exemplo, se eu posso dizer um fato que me alavancou nesse universo foi visitar a exposição “Genesis”, do Sebastião Salgado (fui duas vezes!).  E, como músico, existe um significado além também, pois me faz arejar de um universo artístico só, dialogando e retroalimentando com outras linguagens. Me assumir como um fotógrafo amador me traz as limitações de respeitar demais os profissionais da área e não poder investir excessivamente no campo, mas ao mesmo tempo curto a liberdade de criação que isso me proporciona, mais ou menos como invejo os que fazem música por hobby.

A exposição Oh, Alegrete! permanece na Galeria Mario Quintana, localizada no túnel de acesso às plataformas da Estação Mercado da Trensurb, até o dia 31 de janeiro de 2018, das 5h às 23h20.

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