“Aqui tudo é diferente”: o balanço do trem transformado em arte

Até o dia 30 de abril, o Santander Cultural, no Centro de Porto Alegre, recebe a exposição Aqui tudo é diferente, da artista plástica Lívia dos Santos, com a curadoria do cearense Carlos Eduardo Bitu Cassundé.

Lívia, que possui bacharelado em artes visuais pela Universidade Feevale e atualmente cursa a licenciatura na mesma universidade, pesquisou o ato performático a partir do deslocamento urbano durante seu mestrado em artes visuais, na área de poéticas, pela UFRGS. Ela tem seu processo criativo realizado dentro do trem, usando o próprio movimento do veículo como pêndulo para seus desenhos. Na exposição, estão presente desenhos, fotografias, vídeos e fragmentos do diário da artista. Materiais esses que, em sua totalidade, foram produzidos no percurso entre Porto Alegre e Novo Hamburgo, a bordo dos carros da Trensurb.

Para confeccionar suas pinturas, Lívia amarrava um pincel na ponta de um cordão, que por sua vez, ficava em cima de um papel, no chão do trem. A artista segurava a outra ponta do cordão, encharcava o pincel com nanquim e deixava as oscilações, por intermédio das forças naturais da inércia e da gravidade, agirem sobre sua tela, imprimindo assim o balanço do metrô em suas artes.

Lívia utilizou-se de nanquim e um pincel amarrado em uma linha para registrar o balanço do trem em folhas brancas

Lívia utilizou-se de nanquim e pincéis amarrados a linhas para registrar o balanço do trem em folhas brancas

Lívia afirma que sua arte “tem muito da vida” e explica ainda que, por morar na capital e seus pais em Novo Hamburgo – mesma cidade em que estudava –, as viagens de trem fizeram parte de seu cotidiano durante anos. Sua arte, oriunda do balanço do trem, é fruto da curiosidade surgida durante o percurso de quase uma hora: “Um dia, levei o caderno e tentei paralisar o lápis na página, mas as linhas saíam tremidas. Então comecei a fazer experiências para deixar mais evidente esse tremor”. “Vendo o trem balançar, fiquei curiosa em saber como ficaria um desenho originado daquele movimento, então dei início aos trabalhos dentro do metrô, pensando em como capturar essa mobilidade”, afirma a artista.

Lívia diz não acreditar em inspiração e afirma que todo o desenvolvimento é fruto de um processo contínuo de aprimoramento. Os trabalhos realizados no trem e, posteriormente, a exposição no Santander Cultural, segundo Livia, só foram construídos com “muita dedicação e imersão” no objetivo. “De fato, adotei a prática de ficar viajando de metrô para diversos destinos, me movimentar na linha férrea, simplesmente para trabalhar com isso”. Já no alto do desenvolvimento de seu projeto, a artista percebeu que seu objetivo já não era mais “trabalhar na viagem” e sim, “viajar para trabalhar”, ou seja, “sem o objetivo de pegar o trem para chegar a algum lugar, e sim, circular especificamente para produzir meus trabalhos durante a viagem”, conta.

A exposição Aqui tudo é diferente permanece em cartaz no Santander Cultural (Rua Sete de Setembro, 1028 – Centro Histórico – Porto Alegre) até 30 de março. A entrada é franca.

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