Antologia Digital da Poesia Gaúcha: Mauro Ulrich

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de Mauro Ulrich, declamados pelo próprio autor. São eles: FantásticoO Velho Pubi e SábadoClique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Nessa primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

O poeta Mauro Ulrich, 56 anos, é natural de São Leopoldo e atualmente reside em Santa Cruz do Sul. Publicou, pela Editora Gazeta, os livros de poesia Cellophane Flowers (2011) e Sleeping Bag (2015). Junto com os poetas Romar Beling e Daniela Damaris, mais o fotógrafo Lula Helfer participa do livro Trinta e Seis: Fotos com Poesia. Também tem poemas publicados nas antologias Escritores do Pedrinho e Poetas do Vale, entre outras. Neste ano, foi contemplado com o Prêmio Trajetórias Culturais e prepara o lançamento de mais um livro de poemas, que vai se chamar Stupidman. É assíduo organizador de saraus e tudo o mais que envolva arte e cultura, nas mais distintas áreas da expressão. Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

Mauro Ulrich – Bem, começa que eu sempre gostei muito de ver aqueles trens da Trensurb, aqueles gigantes de ferro andando, esticando-se sobre trilhos, andando da capital para o interior, interior para a capital. Eu sempre gostei muito de andar nos trens da Trensurb. Aquelas conexões por túneis, ali no Mercado Público, na Rodoviária. Enfim, as plataformas, aquela gente toda na plataforma, as pessoas no trem, nós passando de carro pela BR-116 e apostando uma corrida imaginária com os trens da Trensurb. Eu sempre achei uma coisa muito maravilhosa, muito encantadora e sempre, pra mim, foi sinônimo de conexão com o futuro, com uma coisa meio cinematográfica. E agora fazendo essa conexão também digital, que é uma coisa moderna, de colocar a poesia gaúcha, nessa plataforma digital, escolhendo alguns dos poetas gaúchos. Me honra poder participar desse projeto, um convite que aceitei de coração aberto do meu querido amigo, poeta Élvio Vargas e estou muito feliz em poder participar, porque eu percebo que o time é de primeira categoria, são todos excelentes, grandes poetas. E estar junto com essa turma toda, num projeto da Trensurb, só empresta qualidade, só empresta seriedade a um gênero que, muitas vezes, é subjugado, inclusive, por mais incrível que possa parecer, por algumas pessoas que o praticam, né? A poesia, às vezes, é colocada num segundo plano quando, na verdade, é um dos gêneros mais importantes da literatura mundial. Muito contente em participar e tenho certeza que é um projeto que fará um grande sucesso.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

Mauro Ulrich – Bem, eu tenho a impressão que eu escrevo desde sempre ou, pelo menos, desde quando eu aprendi a ler. Garoto criado num apartamento no Centro de São Leopoldo e filho único, durante muitos anos, não tinha muitas possibilidades de outras coisas a não ser me interessar pela leitura, que era uma coisa que foi passada pra mim de pai e de mãe pra filho. No caso, porque eu sempre via principalmente a mãe, muito interessada na leitura, né? A primeira imagem que eu tenho de minha mãe é ela sentada numa poltrona, lendo um livro e o apartamento com as paredes forradas de livros. Então, isso me motivou muito nesse interesse pela leitura e, consequentemente, alguns anos depois de alfabetizado, pela palavra escrita. Eu lembro que o trampolim mais claro sobre isso foi um poema que eu publiquei, quando eu deveria ter por volta de uns onze, doze anos, numa antologia, daquelas antologias de escola. Eu estudava na Escola Estadual Pedro Schneider, o famoso Pedrinho, em São Leopoldo, e os professores de português promoviam aquelas antologias com crônicas e textos, redações, poemas, desenhos dos alunos e tal. Eu participei de uma dessas antologias. E aquilo foi uma coisa maravilhosa, porque meio que me destacou entre os demais colegas da turma, com um poema, assim, sobre uma praça lá de São Leopoldo. E aquilo foi muito legal, porque eu acabei me tornando um cara meio popular, assim, na minha turma. E, inclusive, entre as garotas também, né? Enfim, momentos. Então, eu decidi que era mais ou menos isso que eu queria pra minha vida. Eu vou escrever pra ver se eu consigo me dar bem, de uma certa forma, me tornei jornalista, né? E hoje tenho, então, três livros de poema publicados, três livros de forma oficial, porque, muito antes disso, já fazia o que se convencionou chamar a tal da poesia marginal, lá pelos anos 80, escrevendo poemas em máquina de escrever e grampeando e vendendo na universidade. Enfim, o começo se deu mais ou menos por aí.

O que motivou a escolha do poema O Velho Pubi para a Antologia, o que ele significa para ti?

Mauro Ulrich – Esse poema, O Velho Pubi, que é o primeiro que eu mando pra Antologia da Trensurb, faz parte também do meu primeiro livro, o Cellophane Flowers, de 2011  e eu escolhi ele porque, com ele, se deu uma coisa engraçada. Porque, na verdade, se dependesse de mim, ele nem estaria no primeiro livro, porque eu considerei, na época, um poema um tanto singelo, mas ele foi parar no meu primeiro livro muito por força da vontade do meu editor, o também poeta Romar Behling, que descobriu nele um certo valor que eu ainda não tinha visto. E foi tudo muito engraçado, porque esse poema, O Velho Pubi acabou se tornando um dos hits da minha produção, porque ele é um poema que, mais tarde, foi alvo de estudo no curso de Letras da Unisc, a Universidade de Santa Cruz do Sul. Ele é um poema que foi estudado pelos alunos desse curso, da universidade, é um poema que foi lido em voz alta no seminário de língua e literatura, em Rio Pardo, por um dos autores que participaram do seminário. Enfim, é um poema que se tornou muito popular e, o mais engraçado, ele é um poema que, se dependesse de mim, nem estaria no meu primeiro livro. Ele é uma uma homenagem, um tanto singela, creio eu, que eu fiz pro meu avô, o pai do meu pai.

E quanto a Fantástico?

Mauro Ulrich – Bem, como em Velho Pubi eu homenageio o pai do meu pai, o Fantástico é uma espécie de homenagem, então, ao pai de minha mãe. Ambos já são falecidos. E Fantástico é um poema mais novo. É um poema que foi feito creio que no ano passado. É um poema mais recente, é um poema inédito, ele ainda não foi publicado em nenhum dos livros, deve ir para o meu próximo livro, que está sendo preparado e fala de uma ida nossa, coisas de memória, pensando coisas de infância, adolescência e tal, uma ida nossa, da família, eu, o pai, a mãe, ao cemitério, naqueles cortejos de finados, talvez, ou num domingo qualquer, sei lá, para a mãe ir com frequência até o cemitério no interior de Canoas, ali, distrito de Nova Santa Rita, onde, então, estão enterradas algumas pessoas da família, inclusive esse meu avô, que é o protagonista desse poema. Então, o poema narra uma ida até lá, naquelas estradinhas de chão batido, de Berto Círio, interior de Canoas. E aquela coisa da mãe, a mãe que limpa o túmulo do seu pai, sempre com tanto carinho e as memórias dela, e as histórias que ela nos contava sobre ele, e um vô, também, muito amado por todos nós. Eu acho que termina com a gente retornando pra casa, claro, isso num domingo à noite, pra assistirmos ao Fantástico – O Show da Vida, fazendo alusão ao famoso programa de TV, que dá todas as noites de domingo, que também é uma espécie de fechamento do final de semana, assim, algo meio bucólico, meio deprimente, mas eu acho que é um poema bacana. As pessoas até pode, me dar um retorno pra dizer se eu coloco ele ou não no próximo livro, né? Eu acredito que sim, vamos ver.

E o poema Sábado?

Mauro Ulrich – O poema Sábado que foi a minha escolha como terceiro poema dessa série, então, pra participar da Antologia da Trensurb. É o poema que fecha o meu livro mais recente e é um poema mais longo. Talvez o poema mais longo que eu já produzi até então. Eu tenho um carinho muito especial por ele justamente porque ele significa o fechamento de um ciclo, né? Todo livro é um fechamento de um ciclo e ele tem um caráter mais de crônica. Ele é, talvez, o poema com mais cara de prosa de tudo que eu já escrevi na minha vida em termos de poesia. Ele narra um dia de sábado, um dia normal de sábado, com seus cheiros, seus sons, tudo que acontece numa manhã, no início de sábado, e ele nasceu justamente quando eu acordei e sentei na cama, coloquei os pés no chão e o poema me veio quase que como psicografado, assim, no seu inteiro e eu gosto muito dele. Eu tenho certeza que as pessoas também vão gostar dele. Nos coloca num dia de sábado, ouvindo os sons de pessoas que estão na cozinha cozinhando, o cheiro da comida, o som da voz de meu filho na sala, o barulho dos talheres e o ronco da minha barriga, o som de alguém que passa com uma motocicleta na rua, aquela pessoa que vem entregar a santa, o que é muito comum ainda no interior, aquela passagem da santinha de casa em casa, pras orações. Tudo isso num dia de sábado. Eu espero que as pessoas gostem desse meu querido poema, Sábado.

Como é teu processo criativo?

Mauro Ulrich – Meu processo criativo não tem nenhum mistério, não tem nenhum segredo, é bastante simples e, na verdade, nada de muito especial. O mais importante para que eu construa um poema é que eu esteja me sentindo bem, isso é fundamental. Eu tenho que estar me sentindo bem pra que eu escreva bem. Eu sou um poeta que, ao contrário de muitos outros, não consigo escrever bem na tristeza, não consigo escrever muito bem com algo que esteja me incomodando, mas eu escrevo melhor quando eu estou me sentindo em paz, saudável, sem dor,  sem preocupações, enfim, o que nos dias de hoje é bastante raro. Mas é assim que eu escrevo melhor. Eu escrevo, geralmente, à mão. Eu tenho vários blocos e cadernos espalhados pela casa, enfim, estou sempre catando canetas também. É pra quando vem, não sei se o correto seria dar o nome de inspiração, mas é que quando o poema vem, ele vem praticamente na sua íntegra e eu tenho meio, não preciso me isolar pra isso, eu me sento em qualquer canto da casa. Eu escrevo, principalmente, quando estou em casa e escrevo sempre à mão. E o processo é esse, eu escrevo o poema, eu reescrevo, eu guardo ele.  Eu tenho aqui uma caixa especial onde eu guardo recém-feito pra que, no outro dia, depois de passadas vinte e quatro horas, eu volte a ler esse poema. E se esse poema me diz alguma coisa, se esse poema eu considero satisfatório, ele então, sim, vai ser digitado no meu notebook, computador, e aí ele, automaticamente, já fica ali separado pra uma próxima publicação, o que quer que seja. Mas se eu vejo que o poema, numa releitura, não me diz nada e não está bem, eu simplesmente elimino. Mas o segredo é esse: eu tenho que estar me sentindo bem. Eu escrevo melhor no inverno também, é outra coisa estranha, mas no calor, no verão, com temperaturas quentes, eu não me sinto muito bem e, com isso, eu não escrevo nada bem. Agora, no inverno, eu me sinto maravilhosamente bem. E eu acho que a poesia, ela flui melhor nessa estação do ano. Eu acho muito legal criar no inverno, eu fico esperando o inverno chegar pra que eu possa me tornar um cara mais criativo.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

Mauro Ulrich – Na verdade, eu não trabalho com uma temática específica. Sou um poeta. Já fiz poemas de cunho social, poemas românticos e tal. Eu acho que eu transito um pouco por cada uma dessas coisas e o que mais me seduz são aqueles pequenos acontecimentos do cotidiano que às vezes passam desapercebidos pela maioria das pessoas. Eu gosto muito daquela definição clássica e que se tornou chavão, que é uma definição que eu acho maravilhosa, de Ferreira Goulart, quando ele diz que o poema dele nasce do espanto, né? Do espanto frente as coisas da vida. Eu também me espanto com a mosca que passa, com um chapéu pendurado no cabide, com uma toalha molhada em cima da cama e tento transformar essas pequenas coisas do nosso cotidiano em algo belo, algo agradável aos olhos e aos ouvidos de quem lê a poesia. Eu acho que a poesia está contida em tudo, basta você ter olhos, olhos sensíveis pra saber traduzir e transformar isso em literatura. E nós, aqui no Rio Grande do Sul, temos grandes poetas que fazem isso com uma destreza fenomenal e eu muito me orgulho de ser amigo de um deles, Élvio Vargas, que eu considero hoje, nessa coisa da temática do cotidiano, um cidadão supremo, absoluto. Gostaria de um dia chegar aos pés na construção de um poema. Muito me inspiro nas coisas que ele escreve e, enfim, acho um excelente poeta. Mas a minha poesia nasce das coisas do dia a dia, da rotina, do cotidiano. É um trem que passa sobre os trilhos, uma pessoa que chora lendo um livro, no trem, uma criança que brinca no corredor do trem. A poesia anda sobre os trilhos, ela está contida no interior de cada trem da Trensurb também e eu amo tudo isso.

Muito obrigado pela oportunidade de poder participar desse projeto que eu já considero maravilhoso e contem comigo sempre, que eu estarei sempre à disposição da Trensurb. Um grande abraço a todos.

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