PERFIL: NO COMBATE INCANSÁVEL À PANDEMIA E PELA SAÚDE DOS METROVIÁRIOS

Com a pandemia de Covid-19, a Trensurb realizou a contratação, junto ao Sesi-RS*, de prestação de serviço de triagem dos empregados nos ambientes de trabalho. Desde julho de 2020, uma equipe de técnicos de enfermagem vem atuando nos diversos setores e turnos de trabalho, buscando identificar sintomas condizentes com a doença e avaliando a necessidade de encaminhamento para serviços de saúde. Marina Ribas de Vargas é parte dessa equipe do Sesi, atuando principalmente na portaria de veículos da Trensurb, há quatro meses.

Aos 25 anos, Marina é moradora e residente de Canoas e concluiu o curso técnico em enfermagem na escola O Acadêmico, em sua cidade natal, em 2019. A seguir, ela iniciou a graduação em enfermagem na Cesuca, em Cachoeirinha, e está, atualmente, no quarto semestre. Também realizou cursos de inglês, informática e enfermagem do trabalho. “Fiz o curso extensivo na área de enfermagem do trabalho, conciliei o curso com a faculdade e terminei em março desse ano”, conta Marina. “Quero me pós-graduar nessa área, estudando cada vez mais. Nunca consigo ficar parada, estou sempre lendo sobre as rotinas hospitalares. Acredito que, para ter um hospital funcional, é preciso começar por uma boa administração”, complementa.

Com uma rotina bem definida, a técnica conta que, após chegar na portaria de veículos, prepara todos os materiais necessários, como a planilha de controle de sintomas e o termômetro, ficando a maior parte da manhã em pé, pois o fluxo é bastante intenso. “O que mais gosto da minha rotina na Trensurb é que as pessoas que são recíprocas com a nossa energia, muita gente cumprimenta, chega sorrindo, ou até chama pelo nome, criando uma maior intimidade”, afirma Marina. “Busco tratar todos de forma igual, desde o pessoal da limpeza até o presidente. Por sermos humanos, devemos ser tratados com igualdade”, completa.

Com o intuito de sempre ajudar o próximo, Marina fica atenta às causas sociais. Anteriormente, quando trabalhava na pediatria do Hospital Universitário de Canoas, tentava ajudar as crianças mais carentes. “Também tive contato com crianças quando trabalhei numa clínica de vacinas, gosto muito do olhar puro delas, mesmo que muitas vezes não consigam se expressar falando, o olhar singelo e a afinidade que te completa tornam a situação a mais pura que existe”.

No tempo livre, Marina gosta de ler, estudar e viajar sempre que possível. Pretende ampliar o currículo de viagens assim que terminar a faculdade. “Quando posso, principalmente em feriado, vou pra Quaraí, que faz fronteira com Uruguai, onde a família do meu marido mora. Gosto muito da paz que a cidade transmite e, por ser pequena, não tem o tumulto de uma cidade grande. Tento colher, ao máximo, as energias boas do local”, afirma. Ela conta que também pratica futsal, assiste novelas – sua favorita é Laços de Família – e que é viciada em Harry Potter: “Sempre que posso, faço maratona dos filmes e releio o primeiro livro”. Marina tem quatro afilhados, gosta muito de brincar com eles, feito criança, ficando um pouco longe da tecnologia, brincando na terra, jogando bola e sujando as mãos, passando adiante a experiência que ela teve quando pequena.

Responsável por um papel importante no combate à propagação da Covid-19, a técnica avalia que o fato de ela e os colegas do Sesi estarem atuando dentro da Trensurb demonstra a preocupação que a empresa tem com seus empregados e também com o público usuário do metrô. Sobre a pandemia, porém, Marina alerta: “Ela ainda não acabou, quem ainda não completou o ciclo vacinal é bom evitar aglomerações. Tudo está se encaminhando para um rumo melhor, mas precisamos manter os cuidados e pensar no próximo, evitando que o vírus retorne. Lavar as mãos e usar álcool em gel também é essencial nesse combate incansável que estamos tendo”.

*O gestor do contrato com o Serviço Social da Indústria (Sesi), pela Trensurb, é Carlo Zanfran, do Setor de Higiene e Segurança do Trabalho

Leituras a Bordo: Cristina Macedo fala sobre Lila Ripoll e Lara de Lemos

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb desenvolve o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Encerrando a Antologia, serão lançados vídeos de poemas de Lila Ripoll e Lara de Lemos declamados por Cristina Macedo. Clique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Em sua segunda fase, intitulada Leituras a Bordo, a Antologia destaca poetas ligados ao regionalismo ou que foram marco na poesia sul-rio-grandense, declamados por seus pares. Desde outubro de 2020, o projeto tem promovido a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Nascida em Santa Maria, escritora, poeta, tradutora, graduada em Letras pela UFSM e mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRGS, Cristina Macedo também é membro da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul. Em 2015, publicou seu livro solo de poesia do arrebatamento. Anteriormente, participou da fase inicial da Antologia Digital, quando declamou quatro de seus poemas. Agora, voltamos a entrevistá-la para falar sobre a vida e a obra dessas poetas gaúchas marcantes, Lila Ripoll e Lara de Lemos.

A política influenciou muito a poesia de Lara de Lemos e Lila Ripoll?

Cristina – Sim, muito. As duas poetas foram participantes ativas da política nacional, sendo que Lila foi, inclusive, militante do Partido Comunista Brasileiro. A decisão de filiar-se ao PCB veio depois de seu primo ter sido assassinado, em 1934, por razões políticas, o que fez com que a poeta se vinculasse mais fortemente às lutas e causas sociais.

Lara não se integrou a nenhum partido político, mas lutou durante toda sua vida por justiça social. Como jornalista que era, além de poeta e tradutora, acabou sendo presa pelo regime militar, na década de 1970, e teve que interromper sua carreira jornalística: escreveu, juntamente com Paulo Cesar Pereio, o Hino da Legalidade. O movimento defendia a posse de João Goulart na presidência do Brasil, depois da renúncia de Jânio Quadros.

Lila Ripoll foi igualmente presa pelo regime militar, em 1964. Ficou pouco tempo encarcerada por estar muito doente.

A luta política influenciou a poesia das duas poetas: Lila tem um livro, cujo título é Primeiro de Maio, onde escreve um poema testemunho do massacre que aconteceu no Dia do Trabalhador, em Rio Grande, quando a polícia metralhou integrantes da parada cívica.

Lara escreveu, por exemplo, Itinerário do Medo, em 1997, cujo tema é seu encarceramento, duas vezes, pelo regime militar bem como a prisão de seus dois filhos, sendo que o mais velho permaneceu detido por longo tempo.

Enfim, a política e o social estão presentes em suas obras, mas, como excelentes poetas que foram, souberam não ser panfletárias, a política está nas entrelinhas, com poemas repletos de metáforas, cuidado formal e rica expressão imagética.

Até que ponto um poeta lírico mescla com seu lirismo um poema social?

Cristina – Sou daquelas que acreditam que o lirismo aprimora e leva mais longe o poema social, isto é, se o poema é excessivamente político/social, ele perde em poesia, torna-se meramente panfletário, como eu falava acima. Tanto Lila quanto Lara, enquanto falam das injustiças sociais, contemplam a tristeza, a inquietação, o medo, porém transpostos para o poético. Ambas costuram, em seus versos, a objetividade do social com sua subjetividade lírica.

Os traços biográficos de Lila Ripoll e de Lara de Lemos influenciaram nos seus poemas?

Cristina – Certamente e creio que nenhum poeta ou escritor possa fugir disso. Observa-se essa influência na obra das poetas, desde as memórias da infância no interior, caso de Lila, até e principalmente as lutas que travaram pela justiça social durante suas vidas. Estão contemplados em seus poemas a geografia das paisagens, os seres, os sentimentos da mulher e sua dor, as memórias de insegurança e medo bem como de alegrias e amores.

Toda essa temática, no entanto, nos é apresentada através de uma poesia densa, sem artifícios, perpassada pela melancolia e transfigurada em lirismo.

Qual é o legado de ambas, para os novos(as) poetas desta última geração?

Cristina – Lila Ripoll e Lara de Lemos foram – e são – um marco na poesia sul-rio-grandense. Ambas foram diversas vezes premiadas: Lila recebeu, entre outros, o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (1941) e o Prêmio Pablo Neruda da Paz, em Praga (1951) e Lara, também entre outros, recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Menotti del Picchia (1990) e o Prêmio Açorianos de Poesia (1995). Em 1968, já havia recebido o Prêmio Jorge de Lima, do Instituto Nacional do Livro.

Além disso, tiveram participação muito ativa nos meios literários nacionais, tendo Lila participado da “Geração de 30”, onde convivia com Dyonélio Machado, Mario Quintana e Cyro Martins, para citar alguns nomes.

Lila e Lara são poetas inescapáveis para os novos poetas, especialmente para as novas poetas mulheres, porque em um tempo em que muito se fala de empoderamento feminino, é importante assinalar que elas já tinham consciência das mazelas femininas e sobre elas escreviam desde 1938, no caso de Lila, e 1957, no caso de Lara. Lembro de Lara dizer, em uma entrevista, que sabia bordar, costurar, cozinhar, mas que as atividades domésticas eram insuficientes, ela queria mais, ela queria escrever poesia. E conseguiu.

Enfim, bem mais importante do que as questões de gênero, é o talento que as poetas possuíam para fazer versos que, partindo de vivências pessoais, transformaram em poesia universal.

A influência de Cecília Meireles está mais presente na obra de Lila ou Lara?

Cristina – Prefiro responder transcrevendo um poema de cada uma das três poetas, em que o mar é pano de fundo para a dor, a tristeza, o naufrágio:

NAUFRÁGIO

                   Lila Ripoll

Uma sombra cobriu meu sonho,

desceu à terra, foi para o mar.

Vivo um pouco em cada barco

que naufraga silencioso,

sem chamar.

Um amor morou no meu peito,

cresceu sem medo, mas se escondeu.

Estou sempre em cada estrela,

que brilha um pouco e se apaga,

como eu.

Os meus braços estão quebrados,

sem ânsias novas para prender.

Rotas velas no mar alto,

levam sangue derramado,

sem morrer.

NO MAR IMENSO

                            Lara de Lemos

Sou nave que não chega a termo

por ter no imenso naufragado.

Perdi roteiro e velame,

perdi rumo, remo e mastro.

Quisera destino certo,

navegando em águas densas,

navegando em céu aberto,

embora sem esperanças.

O naufrágio foi meu fado,

que roubou força e destino,

que destruiu meu passado

deixando só desatinos.

Agora navego a esmo,

como uma nave perdida.

Não sigo porque sou cego,

nem volto ao cais de partida.

BEIRA-MAR

                        Cecília Meireles

Sou moradora das areias,

de altas espumas: os navios

passam pelas minhas janelas

como o sangue nas minhas veias,

como os peixinhos nos rios…

Não têm velas e têm velas;

e o mar tem e não tem sereias;

e eu navego e estou parada,

vejo mundos e estou cega,

porque isto é mal de família,

ser de areia, de água, de ilha…

E até sem barco navega

quem para o mar foi fadada.

Deus te proteja, Cecília,

que tudo é mar – e mais nada.

PERFIL: TÉCNICO METROVIÁRIO DECIDIU SEGUIR O SONHO DE SER EDUCADOR FÍSICO

Jean Goulart Neujahr tem 29 anos, é natural de Pelotas, mas reside em Porto Alegre desde 2016. Há sete anos na Trensurb, ele trabalha como técnico em eletrotécnica no Setor de Sinalização (Sesin).

Jean iniciou sua formação profissional em 2008, na Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, em Novo Hamburgo, com o curso de eletrotécnica. Em 2011 e 2012, Jean realizou seu primeiro estágio em uma empresa de sistemas elétricos em Porto Alegre, tendo a oportunidade de conhecer várias partes do Rio Grande do Sul: “Passei por mais de 40 municípios do nosso estado, grande maioria na parte norte”. Depois disso, ele atuou em um fornecedor de rolamentos e retentores também na capital e, em 2013, concluiu o curso técnico. Nesse mesmo ano, ele prestou o concurso público da Trensurb e trabalhou em uma empresa de construção no município de Portão. Em 2014, chegou a atuar no Polo Petroquímico de Triunfo até que, em março, foi convocado para assumir a vaga no Setor de Sinalização da Trensurb, onde permanece até hoje.

As principais funções de seu trabalho envolvem questões como a responsabilidade pelos equipamentos de comunicação – rádio e telefonia –, da linha de bloqueios das estações e de sinalização. É o trabalho da equipe do Sesin que possibilita a comunicação do Centro de Controle Operacional com os trens e estações, assim como o monitoramento e controle da situação da via de forma remota. Uma curiosidade interessante sobre sua rotina refere-se aos relógios analógicos das estações: “Todos os relógios das estações apresentam o mesmo horário. Há um sistema de sincronismo desses relógios e eles trocam o horário ao mesmo tempo”, conta Jean.

O ambiente na empresa e dentro de sua equipe fizeram com que ele se sentisse livre e confortável para seguir seus sonhos. Jean iniciou uma faculdade de Engenharia Elétrica assim que entrou na Trensurb, mas percebeu que não tinha vontade de seguir o curso. Foi então que, com o apoio dos colegas, ele iniciou a graduação em Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “No ambiente de trabalho em que estou inserido, há pessoas ‘jovens há mais tempo’ que eu e os tenho como amigos. Diversas foram as conversas sobre a vida e a importância de fazermos o que gostamos”, relata. Atualmente, ele está no sexto semestre do curso e tem vontade de atuar como personal trainer e também em algum time de futebol. Seus objetivos profissionais envolvem realizar estudos de longo prazo acompanhando algum time de futebol internacional: “Um sonho que pretendo realizar é trabalhar em algum time da elite do futebol mundial, mais especificamente de algum time europeu”.

No seu tempo livre, o técnico gosta de viajar. Ele já fez, inclusive, um intercâmbio na Irlanda, entre 2018 e 2019, para estudar a língua inglesa. “Nos meus aniversários sempre recebo felicitações me desejando bastante viagens. Espero que consiga realizar tantas quanto eles me desejam (risos)”, brinca Jean. Além de viajar, ele tem paixão por futebol: “Viajar e jogar futebol são duas coisas que eu não pretendo abrir mão de fazer. Seja na hora de escolher algum lugar para morar e algum trabalho que venha fazer, onde quer que eu vá, estarei buscando uma forma de conhecer novos lugares e participar de algum time de futebol amador”. Atualmente, o técnico mtroviário é integrante do time de futebol que representa a Trensurb em campeonatos do Sesi. A corrida também faz parte de sua rotina e é algo que o acalma: “Eu gosto de correr perto de casa, principalmente quando me sinto muito agitado e com a cabeça a mil. Aí eu corro uns cinco ou sete quilômetros e fico mais tranquilo”.

Tocar violão e escrever músicas são hobbies de Jean. Ele até já escreveu uma música sobre uma história um tanto inusitada que viveu na China. Em um ano novo chinês, enquanto estava na Irlanda, decidiu ir para a China visitar uma prima que residia lá, porém acabou viajando sem fazer o visto para entrar no país. “Mas isso só aconteceu devido a uma má interpretação de minha parte com relação ao visto de trânsito em alguns aeroportos”, explica. Viajantes que desembarcam no aeroporto de Guangzhou, cidade próxima a Hong Kong, podem permanecer até 72 horas sem visto, porém tanto o voo de chegada quanto o de saída precisam ser voos internacionais. Caso haja alguma conexão dentro do país, é obrigatório possuir o visto. E foi aí que se deu o mal-entendido: “Eu estava fazendo intercâmbio na Irlanda quando comprei passagens para ficar 72 horas no país, para conseguir visitar minha prima e não precisar de visto, porém, no meu voo de volta, tinha uma escala em outro aeroporto dentro da China. Por causa disso não consegui visitar minha prima na casa dela”. Foi a partir dessa experiência que ele escreveu a música e lançou em seu canal do YouTube. Hoje, Jean está focado em concluir seus estudos para poder voltar a viajar pelo mundo.

PERFIL: CONDUTORA DE TRENS QUER TAMBÉM PILOTAR AVIÕES

Ana Carolina Wolf Gambin tem 33 anos, é natural de Porto Alegre, mas atualmente reside em Canoas. Sua trajetória profissional começou desde muito cedo, quando tinha apenas 14 anos ela foi convidada para ser monitora de um curso de português e matemática que à época ela fazia. Hoje ela é graduada em Engenharia Ambiental pela Universidade La Salle, concluído em 2015, e também é Técnica em Plásticos. Ana realizou o concurso e ingressou na empresa em 2008 e conta que foi convocada pela Trensurb quando estava terminando seu estágio do curso técnico.

Ana Carolina está na empresa há 13 anos e, inicialmente, atuou como Agente de Estações e, em 2010 ela se tornou Operadora de Trens, através do processo de progressão interna e, assim, iniciou sua trajetória no Setor de Tráfego (Setra). Ao comentar sobre o trabalho no novo setor e a empresa, Ana destaca que o tempo de casa de alguns funcionários tornam o ambiente amigável: “como em toda empresa há relacionamentos que são mais difíceis, mas o tempo de casa da maioria dos funcionários cria um ambiente amigável onde se pode rir e brincar e isso é algo que me encanta”. Hoje suas principais responsabilidades são revisar e conduzir os trens de forma que todos tenham uma boa viagem. Das curiosidades em sua rotina de trabalho, Ana cita a operação de um trem série 100, por exemplo: “eu não chego e volto no mesmo trem, eu freio e acelero com “as mãos”, no trem “velho” a buzina é no pé, sou eu que falo as estações e também sou eu que abro e fecho as portas. Isso é parte da minha rotina e são as perguntas que mais escuto. Gosto de me sentir útil no que faço”.

Em sua vida pessoal ela gosta muito de viajar, sendo uma das suas viagens favoritas um tour pela Europa com sua irmã. No seu tempo livre, Ana também gosta de estar com seus amigos e familiares, praticar atividades físicas, descansar e ter um tempo para si própria. Ela também pratica meditação e yoga. Ana possui plantas que são muito especiais para ela: “tenho minhas plantas que são minhas filhas; elas alegram e cuidam da minha casa”. Sua paixão, desde nova, está nas coisas que a fazem se sentir viva, como ela mesmo explica: “gosto de tentar entender um pouco de tudo, mas desde nova dizia que eu iria dirigir tudo que tem motor. Falta um avião. Gosto das coisas que me façam sentir viva”.

Antologia Digital da Poesia Gaúcha: Eliane Marques

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de Eliane Marques – todos eles sem título –, declamados pela própria autora. Clique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Nessa primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Poeta, ensaísta, psicanalista e tradutora, Eliane Marques publicou os poemários o poço das marianas (Escola de Poesia, 2021), e se alguém o pano (Prêmio Açorianos na categoria Poema, Escola de Poesia, 2016), Relicário (Grupo Cero, 2009) e as traduções Pregão de Marimorena, da poeta afro-uruguaia Virginia Brindis de Salas (Figura de Linguagem, 2021) e O trágico em Psicanálise, da psicanalista argentina Marcela Villavella (Psicolibro, 2012). Mantém uma coluna sobre cultura e sociedade no jornal Zero Hora. Tem poemas publicados nas revistas Cult e Piauí, entre outras importantes publicações do Brasil. Coordena a editora Escola de Poesia e o projeto Orisun oro que visa à tradução e à publicação de livros de mulheres poetas afro-latino-caribenhas no Brasil.  É docente na Après Coup Porto Alegre Psicanálise e Poesia, onde coedita a revista de psicanálise e cultura Anna O. Trabalhou como roteirista, produtora executiva e diretora do documentário Wole Soyinka – A forja de Ogum, entre outros trabalhos artísticos. Nascida em Sant’Ana do Livramento, na fronteira entre Brasil e Uruguai, graduou-se em Pedagogia e Direito, é mestre em Direito Público, especialista em “Constituição, Política e Economia”, além de trabalhar como Auditora Pública Externa do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Confira a seguir a entrevista que fizemos com ela a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura e processo criativo.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

Eliane Marques – Quanto à forma, o projeto é inovador e contemporâneo, respondendo às demandas deste tempo com os instrumentais tecnológicos que ele disponibiliza.  Sinto-me honrada de integrá-lo junto com outras e outros poetas.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

Eliane Marques – Comecei a escrever na idade adulta. Na infância, fiz apenas versinhos, como muitas crianças fazem. Publiquei os poemários Relicário (2009), e se alguém o pano (Prêmio Açorianos de Literatura, 2016) e o poço das marianas (2021). Como tradutora publiquei Pregão de Marimorena, da poeta afro-uruguaia Virginia Brindis de Salas, e Cabeças de Ifé, da poeta afro-cubana Georgina Herrera (no prelo), esse último no âmbito do projeto Orisun oro.

O que motivou a escolha dos poemas para a Antologia? O que eles significam para ti?

Eliane Marques – Escolhi poemas dos meus dois últimos livros que coubessem na proposta da Antologia. Prefiro que as leitoras/leitores digam do significado dos poemas para cada uma/um. Como poeta, prefiro me mantar afastada de qualquer autoridade sobre os poemas.

Como é teu processo criativo?

Eliane Marques – Os meus poemas são criados como se fossem algo concreto, eles vão se montando ou desmontando conforme eu os escrevo. Não escrevo a partir de ideias ou imagens ou sons pré-concebidos e nem objetivo deixar qualquer mensagem.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

Eliane Marques – Não trabalho com temas pré-definidos, os temas vão se apresentando no ato de escrever.

Antologia Digital da Poesia Gaúcha: Romar Beling

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos (EMLsT), a Trensurb está desenvolvendo o projeto Antologia Digital da Poesia Gaúcha, buscando levar mais cultura ao cotidiano da comunidade. Nesta semana, o projeto lança vídeos apresentando três poemas de Romar Beling, declamados pelo próprio autor. São eles: Quem trago, É tempo de seara e Ode ao sempreClique aqui e acesse a playlist com os vídeos da Antologia no YouTube.

Em sua primeira fase, o projeto promove a veiculação quinzenal de vídeos curtos de poetas declamando poesias, nas redes sociais e nos monitores do Canal Você (presentes em trens e estações). A Antologia tem apoio da Academia Rio-Grandense de Letras, do Instituto Estadual do Livro e do Canal Você.

Natural de Linha dos Pomeranos, na região serrana de Agudo, Romar Rudolfo Beling nasceu em 24 de julho de 1969. Desde 1988, está radicado em Santa Cruz do Sul, onde há cerca de 30 anos atua no jornalismo junto à Gazeta Grupo de Comunicações. Graduado em Letras, é especialista em Literatura e mestre em Letras – Leitura e Cognição. Professor, editor, escritor, cronista e poeta, foi editor da Editora Gazeta e atualmente é diretor de Conteúdo Multimídia da Gazeta Grupo de Comunicações. Publicou os livros: A história de muita gente, livro alusivo aos 50 anos da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e à presença histórica do tabaco na história mundial; Terra de bravos: imigração alemã no Brasil 180 anos, de 2007; Noites em chamas, sua estreia em livro de poesia, em 2011; Uma poética da memória: o holocausto na obra de Jorge Semprum, ensaio, publicado em 2011; Trinta e seis: fotos com poesia, livro que mescla poemas com fotos do fotógrafo Lula Helfer e que teve ainda poemas de Mauro Ulrich e Daniela Damaris Neu, publicado em 2013; as antologias Nem te conto I, II e II, que organizou em conjunto com o professor Rudinei Kopp, entre 2012 e 2014; e A felicidade de estar vivo, segundo livro de poesia, em 2017. Além disso, tem artigos e ensaios publicados em revistas e livros, além de ter colaborado com poemas e crônicas em coletâneas e antologias.

Confira a seguir a entrevista que fizemos com ele a respeito da participação no projeto, sua trajetória na literatura, processo criativo e temas abordados em sua obra.

Como avalias o projeto da Antologia Digital da Poesia Gaúcha? O que pensas de fazer parte dele?

Romar Beling – Entendo que essa foi uma iniciativa muito feliz, tanto pela idealização da forma de divulgação de poesia nesse ambiente específico quanto pela parceria estabelecida. Nesse período tão marcado pela pandemia, e que inviabilizou muitas das atividades que proporcionariam mais exposição, com ações presenciais, projetos como o da Antologia Digital da Poesia Gaúcha permitem que um público mais amplo e eclético tenha contato com essa forma de expressão que é a poesia. E o fato de essa ação reunir nomes já consagrados com outros, talvez menos conhecidos da população, é igualmente uma forma de congraçamento e de aproximação entre gerações e diferentes vozes autorais. Uma iniciativa muito louvável, que, torço, possa vir a inspirar outros organismos, e me sinto honrado e lisonjeado por dela fazer parte.

Desde quando tu escreves? Como foi tua trajetória na literatura?

Romar Beling – Escrevo poesia desde muito jovem, num primeiro momento sem maior pretensão ou sem imaginar que talvez viesse a fazer dessa uma forma pessoal de expressão artística ou cultural. Na verdade, o motivador veio do meu gosto, desde a infância, por leituras variadas e de qualidade, de jornais, revistas, prosa e poesia. Quando ingressei no curso de Letras, na Unisc, isso em 1988, firmou-se para mim a determinação de que a leitura e a produção de textos seriam meu campo de atuação. Formado em Letras, tornei-me jornalista, atividade na qual permaneci ao longo dos últimos 33 anos. Segui escrevendo poesia, e publiquei dois livros nesse gênero, Noites em chamas, em 2011, e A felicidade de estar vivo, em 2017. Igualmente me dedico a crônica e ensaio, embora hoje tenha a produção jornalística como minha ocupação diária. E costumo me definir, mesmo na condição de jornalista ou de poeta, essencialmente como leitor. Leio de tudo, sobre tudo, buscando manter máximo e constante olhar sobre o panorama da literatura brasileira e mundial, e em poesia li praticamente tudo e todos que seria relevante a um poeta digno desse nome ler, dos nacionais e dos estrangeiros, de todas as épocas e voltados a todas as correntes de fazer poesia.

O que motivou a escolha do poema Quem trago para a Antologia? O que ele significa para ti?

Romar Beling – No Quem trago busco brincar, por assim dizer, com uma construção visual do poema, da distribuição dos versos na página, em variadas extensões, e explorando o ritmo, a sonoridade, que vem tanto das rimas quanto da própria extensão, com paralelismo, dos versos. Assim se tem uma primeira parte, a I, com duas estrofes com a mesma construção de quatro versos e as rimas entre uma e outra estrofe; depois uma segunda parte, a II, com uma espécie de contraponto a essa primeira; para então arrematar com a parte III novamente com a mesma disposição de duas estrofes de quatro versos cada, e com as mesmas rimas entre as duas estrofes a exemplo do que ocorrera na parte I. Há um diálogo visual muito claro, consciente e proposital entre as partes I e II, como um começo e um fim, mediado por um fiel da balança da parte II. O poema fala claramente de amor, onde um indivíduo (o eu poético, no qual o leitor se projetará), reconhecendo que ele será sempre o menino que um dia foi, mas é um homem que precisa do abraço, do aconchego, como sina definitiva para a plena realização do viver, para a felicidade. É um poema de que gosto muito, pela simplicidade e por ser despojado, e creio que pode soar bem a homens, mulheres, pessoas de todas as idades.

E quanto a É tempo de seara?

Romar Beling – A “seara” do título, com o significado de colheita, remete ao momento na vida em que, depois de ter plantado e cuidado, a pessoa “colhe”, desfruta do resultado de tudo aquilo que antes motivou seu esforço, seu empenho. É uma vez mais um poema em cujo intertexto está a concretização de um amor, ou o resultado de algo ao qual o eu lírico se dedicou, o que ele almejava. Há novamente a rima entre uma estrofe e outra, e novamente com versos curtos, brincando com o ritmo e a sonoridade. O poema remete a uma colheita que é realizada a quatro mãos, no relacionamento marcado pelo amor e pelo companheirismo, “no reino que faço / contigo”, como sinaliza a última estrofe. Penso que o amor, o afeto, a sabedoria, na relação humana, são os temas clássicos, essenciais e definitivos da poesia, pela qual e com a qual abrem corações e mentes.

E o poema Ode ao sempre?

Romar Beling – Novamente, a exemplo dos outros dois poemas, Ode ao sempre é essencialmente uma definição para o sentimento, para o amor, numa celebração da importância da pessoa amada. Nesse caso, quando o eu lírico “se perde” na outra pessoa ou com a outra pessoa, ele se acha. Aqui se salienta muito a alteridade, tão evidente no amor pleno, em que um se conhece e se reconhece a partir do outro, fundindo e confundindo mentes, desejos, sonhos, planos e aspirações. Penso que o leitor também se identificará muito rapidamente com a essência e o significado do poema a partir da leveza, da sonoridade e da simbologia empregadas.

Como é teu processo criativo?

Romar Beling – Embora o poema, como visualmente se pode verificar, implique em uma construção muito rigorosa, exata, na extensão dos versos, na disposição das rimas, dentro de cada estrofe ou entre uma e outra, o que sugere um exercício cerebral, de escolhas, os meus poemas são muito intuitivos também. Normalmente há uma primeira imagem e a intenção de dizer, traduzir, sugerir um efeito, um significado, e assim o poema se constrói, se veste. Quase sempre meus poemas apresentam versos curtos ou médios, que apresentam um ritmo ou uma sonoridade muito peculiar. Prezo e persigo essa construção, esse efeito visual na página, que, em algumas ocasiões, tem quase um significado “visual” em paralelo ao do conteúdo linguístico propriamente dito. Claro, quem ouve o poema sendo lido não tem a imediata noção dessa disposição gráfica, mas ela para mim é importante.

Quais temas tu mais gostas de abordar em teus escritos?

Romar Beling – Lido naturalmente, como talvez ocorra com quase todos os poetas e escritores, com os temas que falam muito alto à minha formação, a minha origem, as experiências ao longo da trajetória de formação, a memória de situações vivenciadas. Mas também gosto de promover intertexto com as leituras feitas, de maneira que muitas vezes leituras, viagens e outras experiências estéticas (música, cinema, artes plásticas, fotografia) são incorporadas. O poema, para mim, é uma via de expressão do íntimo, dos sentimentos, e eventualmente até mesmo a fixação, no papel, de uma filosofia, de uma concepção filosófica da vida, do mundo. Não consigo compreender uma vida plenamente vivida sem que ela inclua ou envolva a leitura constante de poesia, diante do exercício de reflexão e de expansão da consciência que só as metáforas permitem alcançar.